Nome: Carlos Augusto
Apelido: Guto
Cidade: Belo Horizonte
Nasc.: 14 de fevereiro

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QUASE POEMA
 


De volta para o presente

Volto renovado a BH. Volto porque tenho que estar aqui e descubro que é bom estar aqui. Mas também foi bom estar em casa, a velha casa da meninice, com a família, e poder rever os lugares que brinquei na infância, que andei na juventude, que me diverti, me descobri e que aprendi.

A gente precisa, de vez em quando, rever essas paragens, rever as pessoas, rememorar os acontecimentos de tempos idos. É como ter um reencontro consigo mesmo, com o que foi no inicio, com o que nos levou a ser o que somos hoje, um contato com o que nos tornamos e no que nos transformamos.

 

Eu sempre vou acreditar que existe dentro de cada um o desejo de um encontro, de um encontro profundo consigo mesmo. E que neste encontro, necessário e possível, todo e qualquer ser humano possa ser verdadeiramente ele mesmo e onde o que ele expressa, comunica, revela ao outro possa ser compreendido e levado em consideração pelo seu semelhante. Tenho a forte sensação de que esse encontro se dá comigo, sempre que volto aos tempos de minha infância, aos lugares, às pessoas.

 

Por isso preciso desse tempo e ao mesmo tempo em que me sinto preso a um passado perdido, me sinto gratificado por poder ter em mim esse passado. Essa historia vivida e inscrita dentro de mim com intensidade. História que me pertence a mim unicamente, que é totalmente minha na medida em que sou eu quem a interpreto e sou eu que a trago comigo.

 

O presente? O presente é a minha vida vivida. O presente é a forma como vai se inscrevendo em mim o que vivi. O presente não existe, como disse Bandeira. Sim, ele vai se fazendo a cada dia e só depois ao poder ser contado nos damos conta dele. Depois. Depois que tudo passa, como escreveu Cassiano Ricado, o poeta, nos versos de “Depois de Tudo”: Mas tudo passou tão depressa. / Não consigo dormir agora. / Nunca o silêncio gritou tanto / Nas ruas da minha memória. / Como agarrar líquido o tempo / Que pelos vãos dos dedos flui? / Meu coração é hoje um pássaro / Pousado na árvore que eu fui.

O presente sou eu aqui, sentado em frente ao meu computador, no meu quarto, no meio da noite, ouvindo uma musica, teclando palavras que tentam de alguma forma falar de sentimentos, de nostalgia, de beleza, de vida. O presente ainda não me pertence. Ele está se fazendo, junto com este post.

 

Volto renovado a BH. Confiante, esperançoso, aliviado e um pouquinho triste.

 

Razões

 

O menino sabe do tempo às avessas

porque viver é repetido

é sempre é mesmo é recompor instantes

de outros que vêm vindo

virando momentos passados.

 

No tempo das coisas

ele constrói um tempo de ontens

e por somenos vai refazendo amanhã

sem nunca se aperceber.

 

Mas nem por isso a vida se repete

e o futuro suspira (entende e sente)

-- pressente que viver é ter saudades.

 

(Max de Figueiredo Portes)



Escrito por Guto às 01h24
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Por ser de lá...

Saí de casa tarde demais, eu acho. Dizem que esse negócio de ficar indefinidamente na casa dos pais é coisa de Brasil. Já me disseram ou li em algum lugar que em outras culturas não é assim. Os jovens norte-americanos, por exemplo, são incentivados a sair de casa cedo e buscar uma vida própria. De minha parte o fato de ter vivido até muito tarde debaixo das asas de minha mãe e da proteção (inclusive financeira) do meu pai, não foram muito positivas para mim e para a formação da minha personalidade. Mas, de uma maneira geral e, aos trancos e barrancos fui conseguindo me ajeitar e encontrar o meu espaço nesse mundo louco onde dependência, carência e timidez são palavras que devem ser abolidas dos nossos dicionários internos.

Penso que o mais difícil para mim desde que sai de casa foi conseguir fazer com que a minha casa saísse de dentro de mim. Ainda hoje essa falta, ainda hoje essa necessidade, ainda hoje essa saudade. Um sentimento atávico que me faz ter necessidade de voltar sempre e sempre e sempre.

 

Da última vez que estive lá, disse pra minha mãe: -- agora vou ficar um longo tempo sem pintar por aqui...

 

Mas essa ligação inexplicável, indescritível, imperdoável, faz com que eu novamente volte os olhos para a direção da estrada...

 

Onde está a minha mala com rodinhas?

 

***********

 

Lamento Sertanejo

Por ser de lá
do Sertão, lá do Serrado
lá do interior do mato
da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
eu quase não tenho amigos
eu quase que não consigo
ficar na cidade sem viver contrariado.
 
Por ser de lá
na certa por isso mesmo
não gosto de cama mole
não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
eu quase não sei de nada
sou com rês desgarrada
nessa multidão boiada caminhando a esmo.
 

(Gilberto Gil)



Escrito por Guto às 20h37
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Acende a fogueira do meu coração

Naquela noite ele vestiu seu terno branco, pegou palha de milho, dobrou cuidadosamente e ajeitou no bolso do paletó. Tirou do fundo do guarda-roupa o chapéu de palha, passou um perfuminho e saiu sorridente. Era o noivo indo para a cerimônia. 
 

A festa estava animada. Muita bandeirinha, muitos fogos, bebidas, comidinhas típicas da roça. Começa a encenação. A polícia leva o noivo até o local do casamento. A noiva grávida faz ares de donzela. A audiência sorri, depois ri mais alto, depois dá muitas gargalhadas.

 

Após o conturbado casamento, começa o grande baile. Alguns passeiam pelas barracas, outros se sentam para tomar uma bebidinha quente. Ao redor da fogueira, as moças jogam pedidos para o santo e tiram a sorte para ver com quem vão casar.

 

É um momento feliz, coisas de um outro tempo são revividas e vêm se tornar presentes na alma do rapaz que acabou de se casar com alguém que jamais terá em sua vida real. Olha pra noiva. Olha as pessoas se divertindo. Os casais namorando. De repente sente uma tristeza indefinida. Uma saudade de alguma coisa que ficou num passado distante, uma saudade ancestral, mas que de alguma forma o comove.

 

Foi no tempo de escola que isso aconteceu. E ele me contou que estava emocionado. E a gente riu enquanto tomava caldo de feijão.  Ríamos daquela grande encenação, daquelas pessoas com suas vestimentas inusitadas. A tradição é realmente de uma força extraordinária. Era o segundo colegial. Era a adolescência e suas descobertas. Eram os amores não correspondidos. Eram os jogos e as brincadeiras. Era a vontade de viver. Meu amigo se casava com a menina que gostava. Eu olhava tudo com curiosidade. Ele buscava com os olhos onde encontrar sua esposa de mentirinha. Fazia muito frio. Riamos de tudo e de todos. Mas, entre risadas e piadas, tínhamos os olhos úmidos. Os olhos de meu amigo brilhavam muito, seu rosto estava rubro, e me lembro que ele tinha indubitavelmente os olhos cheios de lágrimas, naquele momento.

 

Talvez seja coisa de quem veio do interior, ou talvez seja algo maior, cravado na alma, no inconsciente coletivo, mas até hoje as festas juninas me comovem...

 

 

Chegou a hora da Fogueira

 

Chegou a hora da fogueira

É noite de São João...

O céu fica todo iluminado

Fica o céu todo estrelado

Pintadinho de balão...

 

Pensando no caboclo a noite inteira

Também fica uma fogueira

Dentro do meu coração...

 

Quando eu era pequenino

De pé no chão

Eu cortava papel fino

Pra fazer balão...

E o balão ia subindo

Para o azul da imensidão...

 

Hoje em dia o meu destino

Não vive em paz

O balão de papel fino

Já não sobe mais...

O balão da ilusão...

Levou pedra e foi ao chão...

 

(Lamartine Babo)



Escrito por Guto às 20h38
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Os dias tristes de outono

Tem certos dias em que realmente não temos muita esperança. Dias cinzas. Dias mortos. Nada parece bem e nada parece dar certo. Olhamos para o nosso espelho e vemos alguém desanimado, desolado, cinzento como o dia (mesmo que faça sol).

De onde vem essa angustia, esse desencanto, essa falta de motivos? O mundo não está colaborando. As exigências, as cobranças, os objetivos inalcançáveis: tudo é tão difícil. A gente quer tudo (mesmo que pareça ser modesto). O carro, a casa, a viagem, o amor correspondido com igual ou maior intensidade. Mas o carrão não vem, a casa mora nos sonhos mais distantes, o amor é sozinho ou pequeno, medíocre, se é que se pode existir um amor assim.

 

E nestes dias assim, sombrios, escuros, o que se pode sentir que não seja torto e sem perspectiva? De repente não se deseja mais. Um atroz sentimento de derrota invade por dentro, domina a alma. A gente percebe, então, muito claramente, em meio a toda essa escuridão, que perdeu. Não tem mais como ir em frente. O melhor é fechar os olhos e esperar o tempo passar...

 

Porque, obviamente, vai passar. De um jeito ou de outro temos que abrir os olhos e seguir em frente em busca da luz no final do túnel. Sim, tudo passa sobre a terra.

 

A gente segura na mão de... Caio Fernando Abreu. E vai...

 

 

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como "estou contente outra vez”.

Caio Fernando Abreu”.



Escrito por Guto às 23h49
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Poema para seu Domingo

Se vivo estivesse, o poeta lusitano Fernando Pessoa estaria completando 120 anos. Aproveitando as comemorações e homenagens que a ele foram prestadas na semana que passou, deixo um pouquinho do poeta magistral no meu post de domingo.

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 13 de junho de 1888. Com apenas 5 anos de idade perdeu o pai e, no ano seguinte, um irmão. Pouco tempo depois a mãe casou-se novamente e, como o marido era Cônsul de Portugal trabalhando numa colônia britânica de nome Durban, na África do Sul, a família teve que deixar Lisboa. O pequeno Pessoa então cresceu em contato intimo e profundo com a língua inglesa e com a literatura de Shakespeare, Poe, Byron, e outros tantos grandes escritores ingleses. Era uma criança tímida, de temperamento reservado e introspectivo. Viveu na colônia inglesa até os 17 anos, quando resolveu voltar a Portugal, a fim de estudar Letras. Aluno brilhante e jovem inteligente, ainda assim ele acabou não terminando o Curso, iniciado em Lisboa, preferindo estudar por conta própria.

 

Seus primeiros artigos e poemas foram publicados na revista “Águia” por volta de 1912 e mais tarde veio a colaborar na importante revista literária Orpheu que trazia os mais destacados poetas do modernismo português. Seu primeiro livro, porém, o “Mensagem”, só seria publicado em 1934, um ano antes de sua morte. Foi o único de seus livros que o poeta viu impresso. Felizmente, ele havia deixado uma vasta obra a ser descoberta e trazida a público. Ainda hoje, comenta-se que há um espolio poético enorme a ser desvendado, descoberto e por publicar.

 

Poeta dos heterônimos, Fernando Pessoa, se expressava através de personagens que, segundo ele, tinham realmente vida, biografia, história e idéias próprias. Esses personagens, esses Outros, sempre instigaram e deram uma espécie de mistério à vida do poeta. Ele atribuía a esses poetas múltiplos uma disposição anímica que trazia consigo desde a infância. Foram vários heterônimos (não eram pseudônimos, como ele sempre enfatizou, já que tinham vida própria), mas os mais constantes e estáveis foram Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos, Ricardo Reis, o mestre, e Álvaro de Campos, o sentimental. Neste mundo imaginário, o Poeta Fernando Pessoa, ele mesmo, transita, com seus mistérios, suas angustias, suas insatisfações e sua solidão.

 

Ele buscava respostas no esoterismo, no ocultismo, mas não conseguiu se realizar nesta vida. Suas perguntas, seu vicio incontrolável de pensar, de buscar respostas para questões muito humanas, como a idéia do mistério da morte, o levou por caminhos tortuosos. Sempre solitário, o poeta não se casou, não teve uma vida longa. Bebia alem da conta e morreu jovem em conseqüência de uma cirrose hepática, no dia 30 de novembro de 1935, num hospital de Lisboa.

 

Em seu poema “Aniversário” ele diz: ‘No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, / E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer’.  O que pensaria o poeta se imaginasse, quando fez estes versos, que 120 anos após seu nascimento ainda se comemoraria o dia de seus anos, ele, que morreu jovem e que tanto se questionou sobre a morte?

 

Vamos ler Fernando Pessoa sempre. A obra toda vale muito a pena. Escolhi hoje um poema que acho magnífico e que revela o poeta apaixonado entre o amor e a razão. Espero que agrade a todos.

 

Eros e Psique                                          

 

                                ... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no  Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.                                  

                                             DO RITUAL DO GRAU DE MESTRE DO ÁTRIO NA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL

 

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino --
Ela dormindo encantada
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

(Fernando Pessoa)



Escrito por Guto às 01h21
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