Nome: Carlos Augusto
Apelido: Guto
Cidade: Belo Horizonte
Nasc.: 14 de fevereiro



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QUASE POEMA
 


Tempo de Natal... Tempo de reflexão



CONSUMO, LOGO EXISTO*

Ao visitar a admirável obra social do cantor Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós."

O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em Cinderela. Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder.

Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com mercê", com troca.

Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

(* Frei Betto, mineiro de Belo Horizonte, religioso pertencente à ordem dominicana, é escritor e jornalista. Ele sempre atuou em movimentos pastorais e sociais, é assessor do Presidente Lula, coodenador do belo programa Fome Zero e é um pensador da realidade em que vivemos. )



Escrito por Guto às 13h49
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Tem de haver uma árvore

Estávamos os dois silenciosos, ouvindo a amiga falar enquanto tocava com os dedos as bordas do copo sobre a mesa, o que me fazia pensar que a qualquer momento ela o derrubaria, ou entornaria sua bebida sobre a toalha bordada. Seus olhos, muito grandes, muito negros, muito tristes, encaravam meu amigo sem medo, com essa coragem de se expor, de se colocar com franqueza, que é bem característica das mulheres. Eu a observava embevecido enquanto ela dirigia ao meu amigo o seu rosário de lamentações. Eu tinha um sentimento dúbio de inveja e respeito. Queria ser eu ali, aproveitando aquele momento de intimidade para falar de mim e de minhas mazelas. Mas homem tem essa coisa reprimida, que é difícil de ser desvencilhada por mais que nos esforcemos.

Existe um velho ditado que diz que se temos dois ouvidos e apenas uma boca é porque devemos ouvir mais do que falar. Apoiado nessa suposta verdade eu me deixava estar ali e então eu me contentava em observar, em ouvir. Eu gosto muito de ouvir as pessoas, tenho essa tendência natural de me ocupar da vida dos outros. Mas no bom sentido. E ouvir a amiga, assim, numa certa distância de segurança, sem me intrometer em sua fala, sem interferir no seu raciocínio, foi um exercício fantástico que eu gosto muito de praticar na vida.

Encanta-me ouvir o que é dito, mas me interessa mais ouvir o que não foi dito, o que surgiu implícito, o que se fez presente na fala, o que surpreendeu ou falhou no discurso articulado de minha amiga sofredora e infeliz. Impossível não me identificar com aquelas dores todas. Impressionante como as dores humanas são comuns, são repetitivas, são banais. Ela banalizava uma dor que eu também conhecia. Maiores, até, mais complexas. Mas não vou falar aqui de seus sofrimentos e de suas buscas, embora pudesse fazê-lo anonimamente. Sim, ela buscava uma saída, uma luz, um dedo que apontasse o caminho. Resposta que eu não tinha; o que me deixava mais confortável no meu silencio. Existem momentos na vida em que não vemos a saída. Mas ela existe, certamente.

Meu amigo, um grande sábio, não teve medo de vir com uma de suas belas metáforas. Algo que lera num romance e que guardara, talvez, para usar num momento oportuno. Contou para ela a historia de um certo caçador e da experiência desse caçador em um safári. O caçador contava que, de repente, não se sabia bem de onde, surgira um leão enorme, que corria em sua direção. Os companheiros e os carregadores de armas haviam fugido. Ele estava sozinho e desarmado. Não tinha onde se esconder. Nenhuma moita, nem arbustos, nenhuma árvore a vista. O caçador apavorado não via saída, se desesperava e o leão assustador vinha correndo a toda, em sua direção e estava cada vez mais perto. “—E como você escapou?” – perguntou um dos ouvintes da narrativa do caçador. “—corri para a árvore mais próxima e subi”. “—Mas você disse que não havia árvores”. “—Você não entende. TEM de haver uma árvore!”.

Ou, como ensina aquele velho dito oriental: por mais escuro que pareça estar aí existe luz... Eu pensei, enquanto ouvia meu amigo, enquanto observava minha amiga, enquanto pensava em como encontrar a minha árvore...

* * * * * * * * * *


A vida é uma Vitrine

A Vida é uma vitrina de tecidos.
A gente, por instantes, fica de olhos perdidos
na beleza das telas deslumbrantes.
Depois, entra na loja e vai comprar.
Caixeirinha gentil, a Ilusão vem vender ao balcão
e não se cansa de mostrar, não se cansa
de exibir delicados, rendilhados,
leves panos de Sonho e de Esperança.
As mãos tocam de leve na leveza das telas.
Não vá o gesto, por mais breve, esgarçar uma delas!
Todas tão lindas! Mas a que fascina
não está ali na grande confusão
das peças espalhadas no balcão.
E a gente diz, num ar feliz:
"Levo daquela rósea, muito fina, exposta na vitrina."
Logo o Destino vem (da loja é o dono)
e fala sobranceiro, com entono:
"É artigo raro.
Marca, padrão e cor: - Felicidade.
É um artigo de alta qualidade o mais caro de todos os tecidos.
São cortes especiais... e estão vendidos!"
E a gente vai comprar do áspero pano que se encontra na seção do Desengano.

( Graciete Salmon)


Escrito por Guto às 00h01
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Poema de Domingo

Alguns estudiosos afirmam que o amor tem data certa para terminar. Será? Alguém me disse um dia que o amor é perda. Que tudo é maravilhosamente perfeito no inicio, mas ele vai se desconstruindo ao longo da vida, na medida em que vamos saindo do sonho, do idealizado, para a realidade. Não somos perfeitos, nossos objetos de amor também não. As diferenças existem, os choques de opinião, algumas atitudes que surpreendem pelo que têm de inesperado, de incômodo. Em algum momento as diferenças irão surgir, irão impactar, irão manchar o delicado linho do amor. E o que acontece quando, em nome desse amor, uma família se construiu, uma história a dois foi idealizada, e foram viver sob o mesmo teto, e tiveram filhos e dividiram tudo? Qual a saída? Neste caso, há que se buscar manter o relacionamento em prol dos filhos, ou da família, dos amigos, da sociedade? O que fazer? Viver uma vida de aparências, fingir alegria e serenidade enquanto, por dentro, estamos derrotados e infelizes? Estas questões se manifestaram em mim ao reler o poema de Bruna Lombardi, que deixarei aqui, neste domingo, para o deleite de todos.

O fato é que não é fácil para ninguém assumir que uma relação acabou. Significa aceitar o nosso fracasso, a nossa perda. O sentimento de que erramos e de que não fomos maduros. Não é fácil enfrentar os nossos familiares, explicar, reviver, contar detalhes, nos colocarmos como vitimas de um destino cruel, ou culpar o outro, depositar nele o que na verdade temos dentro de nós. Pois normalmente é isso que ocorre. Dificilmente se é maduro o suficiente para encarar como algo que faz parte da vida o desengano, o erro, a decepção. Temos medo de frustrar os que amamos, de perdermos nossa segurança, nosso lar, nosso porto seguro. Temos medo de assumir a parte que nos cabe nessa fissura, nesse arranhão, nesse desenlace. Como reconhecer nossa falta de diálogo, nosso egoísmo, nossas imperfeições? É mais fácil depositar tudo no outro.

Então é disso que quero falar, junto com Bruna: viver um conflito, viver ‘em’ conflito, mas se conformar a isso, aprender a respeitar as regras, em nome de algo maior, ao qual não se dá conta de enfrentar e, a partir daí tentar viver no dia-a- dia uma vida o mais serena possível? Abdicar de viver por nós, para nosso próprio eu, para viver pelo outro, pelo filho, pela família, pelos amigos, ou seja, pelo que se espera de nós? Ou partir para outros sonhos, outras experiências, outras histórias? É feita aí uma contabilidade. E cada um saberá qual será a cota de felicidade ou de dor que essa escolha trará para sua vida. Cada um escolherá o que quer para si, o que vale mais a pena. E essa escolha, seja ela qual for, deve ser respeitada.

Uma vida em comum requer mais que paixão, mais que desejo, mais que mel. Uma relação exige amizade, existe compreensão, exige sacrifícios. É necessário respeitar o outro, buscar entendê-lo, apoiá-lo e, nas pequenas decepções, perdoá-lo.

Sim, alguém me disse que o amor é perda. Eu não penso assim. Ao contrário, o amor é um presente que se ganha todos os dias quando abrimos os olhos para o mundo e sentimos que não estamos sós. O amor que no inicio pode parecer o símbolo máximo da perfeição, é apenas uma paixão.

Sim, alguém me disse que o amor vai se desconstruindo ao longo da vida. Eu não penso assim. Ao contrário, o amor se constrói no dia-a-dia. E vai se eternizando a cada novo amanhecer.

** * * * * * * * * * * *

Intervalo

João, nós temos visita
vamos fingir felicidade
a casa organizada
os sentimentos em ordem
Vamos fingir harmonia
e equilíbrio emocional
vamos pôr a empregada
de avental.

Vamos sorrir serenos
falar baixo, pisar leve
(que a paz more conosco)
mesa posta, flor no vaso
cerimônia, chá servido
comentários em geral
-João adora... eu prefiro
você também? que engraçado

É a vida é assim mesmo
mas não há nenhum problema
que não possa ser superado –
E depois etc e tal
tudo em volta funcionando
com a maior perfeição
todos os gestos medidos
para dar boa impressão.

As coisas dentro dos eixos
o coração em horário
João, nós temos visita
tira o jornal do sofá
guarda a angústia no armário.

(Bruna Lombardi , linda, inclusive por fora, é atriz, apresentadora, modelo, roteirista e poeta, sobretudo poeta, mesmo quando não escreve versos.)


Escrito por Guto às 01h35
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Um selinho e um espaço lúdico, no blog

Recebi da minha amiga Majoli do Rabiscos da Alma, este selinho e um convite para uma brincadeirinha, que servirá para mostrar um pouquinho mais de mim. Obrigado pelo carinho, Majoli.

Para brincar, você precisa:

1) Seguir as regras

2) Levar o selo acima para identificar quem está, esteve ou estará na brincadeira

3) Completar as seguintes frases:

a) Eu já....
b) Eu nunca...
c) Eu sei...
d) Eu quero...
e) Eu sonho...

4) Depois de completar as frases com suas respostas, indique 5 blogs para dar sequência a brincadeira


Minhas respostas:

a) Eu já...confundi amizade com amor (e continuo confundindo...)
b) Eu nunca...tive um grande objetivo ou meta a atingir em minha vida.
c) Eu sei...que,apesar dos pesares, viver é uma coisa boa.
d) Eu quero...viver muito e ver (nem que seja beeeem velhinho), um mundo melhor e mais justo.
e) Eu sonho...em visitar algumas cidades europeias, como Fátima, Paris, Londres (e pretendo realizá-lo brevemente).

Os meus indicados são:

Todos aqueles que seguem o "Quase Poema" e se interessem pela brincadeira!


** * * * * * * * * * * *


"...Eu já não sei se sei
De nada ou quase nada

Eu só sei de mim
Só sei de mim
Só sei de mim..."

(J. Ricardo)


Escrito por Guto às 18h18
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A quem se machuca?

Em Viver a Vida, a novela, Luciana é uma garota que sempre teve tudo: facilidades, carinhos, mimos excessivos da família. Tudo lhe foi dado de bandeja. É a mais bonita e a queridinha de todos em casa. Ela nunca teve que lidar com a dor, com o medo, com o preconceito. E não aprendeu o básico da vida: a solidariedade com a dor do outro e o respeito pela sua historia de vida. Ela nutre por Helena (mais uma das heroínas de Manoel Carlos) um misto de inveja e rancor por sentir que perde para ela a fama e o reconhecimento na carreira e perde também o amor do pai, já que dividir não é com Lu. É demais para ela! Numa viagem a trabalho, irritada com o excesso de zelo e proteção de Helena, Luciana diz que pode vir a odiá-la. Helena retruca que Luciana é mimada e que não aprendeu a perder. Luciana diz que Helena quer se passar por sua mãe e que ela deveria fazer terapia pelo fato de ter feito um aborto, no inicio de sua carreira como modelo. Depois dessa troca de palavras ácidas, duras e desrespeitosas, claro, vem o silêncio. Silêncio em que tudo que foi verbalizado vai sendo digerido e é absolvido por ambas. Helena, obviamente, não suporta a força das palavras cruéis de sua enteada e lhe da um, enfim sonoro, bofetão, um inesquecível tapa na cara que quebra o silêncio. Helena nada diz, apenas atua. Por que razão? Simples: sem mais palavras que julgasse pudessem ser mais fortes que sua dor por ouvir algo que “ainda sangra” em seu peito, não vê outra forma de expressão para mostrar à outra o tamanho de sua mágoa, de sua indignação.

Quem bateu? Quem levou? Qual das duas se feriu realmente? Aquela que levou um tapa ou aquela que engoliu palavras duras? Fiquei a pensar sobre isso. Na falta de respeito, na falta de amor entre as pessoas. Helena, depois desse embate, vai negar uma carona para Luciana que, por sua vez, sofre um acidente terrível. Está montado o cenário para uma vida onde o rancor, o ódio, a culpa e o desamor reinarão em lugar da paz e da tranqüilidade, que é o que se quer da vida. Mas para quem, como sugere o título da história, deve viver a vida com leveza e luz, pode haver promessa de uma escuridão maior? Renato Russo cantava uma canção em que dizia: “tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar...” E é isso mesmo! Quando se tem amor pelo outro, pelo mundo, pelas maravilhas que nos são oferecidas todas as manhãs, ao abrirmos os olhos, essas pequenas coisas que nos são reveladas no dia-a-dia, então fica mais difícil atirar palavras avassaladoras ao nosso irmão.

Mas eu sou, apesar de tudo, alguém que ainda acredita no ser humano e trago em mim a esperança de que ele sempre poderá superar-se e me surpreender positivamente. Escuridão há, mas penso, junto com Renato, que o sol pode voltar amanhã.

O certo é que sempre fico impressionado com a força das palavras, com o poder que elas têm e com o vigor que elas imprimem dentro das nossas almas e ferem sentimentos nossos, os mais recônditos. Na história de nossas vidas passamos por vivências únicas e escrevemos nosso destino em algum lugar dentro de nós. Nesse lugar, que alguns chamam de alma, outros de cabeça e outros ainda de coração, não importa, nesse lugar fica o registro de nossas alegrias, nossos momentos de glória e prazer, mas nele trazemos também a marca dos momentos em que não fomos dignos, que agimos sem pensar, que ao agredir o outro nos agredimos a nós próprios em primeiro lugar, que fomos mesquinhos, egoístas, ou apenas humanos, pensando estar fazendo o melhor ou o que seria o mais correto naquela ocasião.

Quem de nós, afinal, não agiu de forma pouco louvável em um dia de nossas vidas? Quem não teve uma atitude ou disse uma palavra que se arrependeu depois? Atos ou palavras, não importa, o que fica é o efeito causado em nós. A personagem de Tais Araujo teve um ato no inicio de sua vida profissional, um aborto. Algo que é sempre tema de grandes controvérsias. De minha parte, talvez devido a uma educação cristã, uma criação religiosa onde muitas idéias, muitos conceitos e preconceitos são introjetados e ficam fortemente impressos em nós. Talvez venha daí a minha dificuldade em entender como natural uma atitude de tirar um filho. Porém não sou nenhum juiz do mundo e não deixo de amar e respeitar uma pessoa por causa de uma atitude com a qual eu talvez não concordasse ou aceitasse em minha vida pessoal. Esse tipo de sentimento, de sensibilidade e de solidariedade falta em pessoas como a Luciana de Aline Morais. Pessoas que machucam o outro sem medida, sem medo das palavras, as poderosas, as avassaladoras, as rudes palavras desprovidas de poesia.


* * * * * * * * * * * *


À Mesa.

Faca oxidada contra a polpa verde,
É roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.

(Adélia Prado)


Escrito por Guto às 12h34
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