O mundo mágico dos blogs 
Foi timidamente que comecei no mundo dos blogs. Tinha um amigo adolescente que me deu um dia, por e-mail, o link para o seu blog. Posso dizer que foi a primeira vez que naveguei por um blog de uma pessoa conhecida. Era um blog de menino, com aquelas coisas de pré-adolescente, mas foi essa visita que me deu um click, uma vontade de experimentar, já que sempre fui amigo das palavras escritas, dos textos reflexivos, dos desabafos, dos poemas.
Incentivado por este menino, comecei a arriscar-me no mundo dos blogs. Confesso que antes dei uma navegada por vários blogs, afim de me inteirar do que as pessoas estavam falando, o que escreviam, o que era o grande lance. Mas logo percebi a diversidade, falta de critério, a liberdade que a nova ferramenta proporcionava e eu, que a principio pensara em fazer um diário falando sobre mim, percebi que não daria conta disso, que não me exporia nem para desconhecidos. Pensei em um blog com minhas letras de música preferidas de todos os tempos, mas era uma idéia batida já naquela época. Desisti. Resolvi então escrever o que me viesse a cabeça, sem me preocupar com coerência. Lembro que escrevi lá, a guisa de apresentação: “as coisas acontecem e eu falo sobre elas”.
O primeiro comentário a gente nunca esquece. Foi graças a ele que percebi que estava dentro daquele mundo. As pessoas me liam. Pelo menos uma pessoa. Foi fantástico. Eu estava definitivamente inserido no fantástico mundo dos blogs. E nele estou até hoje, entre altos e baixos. Até quando? Não sei dizer. Tudo muda tão rápido neste mundo... Mas por enquanto vou vivendo essa magia.
Sim, esse mundo dos blogs tem mesmo uma magia. São tantas idéias, tantas coisas belas. Adoro viajar nas palavras dos blogs que visito. Aquele que trás os poemas do blogueiro, aqueles que trazem histórias da vida da pessoa. Os que me fazem rir, os que me fazem chorar. Sempre uma emoção. Os blogs que falam de amor, que falam de dor, que contam piadas, que trazem causos, que trazem belas imagens, que guardam momentos. Os que criticam o mundo, que lêem o mundo, que fazem política, que detonam, que elogiam, que vaiam, que aplaudem, que antecipam novidades, que trazem o novo. Os blogs dos destemidos, que falam o que querem, sem receio. Os frágeis, os duros, os singelos, os sexys. Blogs são assim: variedade, verdade, magia.
E os blogs têm alguma coisa de eterno, mesmo quando acabam. Os blogs têm alguma coisa de triste. Especialmente os blogs que terminam. Alguns blogueiros fazem discursos de despedida, explicam e tentam afagar seus leitores com as suas justificativas para abandoná-los. Outros deixam apenas um recado, uma vez que tudo que começa um dia acaba. E se vão. Outros colocam um “Fim” e pronto. Que seus leitores pensem o que quiserem. Ah, e tem aqueles que deletam seu blog e pronto, acabou. A gente clica no link e tem a noticia de que aquela pagina não existe. É sempre triste. Mas o mais triste, o tristíssimo são aqueles que simplesmente ficam lá, em aberto, com um último post como outro qualquer. E a gente vai lá todo dia pra ver se tem novidade. Depois as visitas vão se escasseando: uma vez por semana, uma vez por mês, uma vez por ano... e o blog está lá, sobrevive, sem nenhuma palavrinha. É bem triste. Por isso, aliás, minha listinha é sempre pequena. Volta e meia estou lá retirando da lista, melancolicamente, um blog abandonado pelo seu autor, que por estar ali a vista, sempre me faz entrar nele e sair sem um consolo, uma palavrinha sequer.
Mas é sempre fascinante este mundo de sentimentos virtuais que tocam o real. A gente se apaixona, a gente torce, a gente ama. Nestes anos de blog, já me emocionei tanto. Já chorei junto. Já dei risadas de situações cômicas, já torci desesperadamente por causas e pessoas. Já tive invejinha de textos que não fui eu quem fiz, de poemas que desejei ter escrito. Já rezei por blogueiros necessitados. Já me preocupei e sonhei com eles como se fossem da minha família. E de alguma forma, são.
* * * * * * * * * * * *
Obrigado, Majoli, por ver magia em meu blog também. Estes retornos são sempre animadores, fazem a gente ter fé na gente, ter vontade de continuar. Seu RABISCOS DA ALMA comove e tem magia para me encantar e trazer emoção para os meus dias (e minhas/nossas noites insones). Muitíssimo grato pela lembrança.
A orientação é de que eu deveria indicar 10 pessoas para receber o selinho, mas depois desse discurso todo, realmente não consigo pensar em números. São todos os blogs da minha lista e tantos outros que não estão nela... todos são mágicos para mim. E a todos da minha lista ofereço este selo.
“Para ser grande sê inteiro. Nada teu exagera ou exlui” – F. Pessoa.
Escrito por Guto às 23h13
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Vida: quase poema 
Era meu aniversário. Eu não gosto muito de aniversários. Costumo passar o meu dia no interior, junto com a minha família já que fevereiro é uma boa época para se sair de férias. E como tenho uma família enorme, acaba sempre rolando alguma comemoração. Quando estou em BH tudo se passa como um dia comum. O que é mais próximo do real, eu acho. Pra que comemorar não é mesmo? O que comemorar? A sensação de que a vida está passando para a gente? Não sei se isso seria um bom motivo. Mas gosto de comemorar os aniversários dos outros. Desejar felicidades, abraçar, dar beijos. É um bom momento para mostrar ao aniversariante que ele é importante para nós, que estamos felizes por ele existir em nossa vida.
Hoje é aniversário do Milton Nascimento. Sempre me lembro do aniversário do Bituca. Agora que ele ficou internacional, a gente não o vê muito por aqui. Lembro de poucos aniversários, mas o do Milton eu não esqueço. Desde os tempos da juventude, quando ouvia ele sem parar. Teve uma época assim. Idolatria. Agora ficou apenas um respeito pela obra, pela pessoa. Milton me foi apresentado por uma amiga. Uma pessoa muito importante para mim. Até hoje temos contato. De vez em quando nos encontramos e falamos um pouquinho sobre nossas vidas, sobre o que fazemos, sobre o que conquistamos, sobre nossos problemas, nossas dificuldades, nossas vidas pessoais. Da ultima vez que estivemos juntos não falamos do passado. Coisa rara. Minha amiga é uma saudosista contumaz. Mas não falamos do Milton (Será que ela ainda curte as músicas daquele velho disco?). Falamos de nossos momentos atuais. Não houve tempo para lembranças. Não há muito tempo para lembranças nos dias de hoje.
Enfim, deixemos por hora a minha amiga quietinha num canto qualquer do lado esquerdo do meu peito; deixemos um abraço apertado para Milton Nascimento pela passagem de mais um aniversário e voltemos, após esse parêntese, ao inicio deste post, onde eu falava sobre um dos meus aniversários. Ele caiu numa sexta feira e, junto com alguns amigos, resolvi sair, após o trabalho, para comemorar. Como foi um lance de última hora, resolvi ligar para algumas pessoas. Uma dessas pessoas era louca, alucinada por Clarice Lispector. Falei pra ela ir encontrar com a gente pra, tipo, ‘comemorar’. Mas como era sexta feira, ela já tinha alguma coisa planejada e ficou meio aturdida ao telefone, sem saber como dizer não. Eu percebi e falei que só naquela hora havia resolvido, que não tinha nenhum problema que ela não fosse, fui dando mil desculpas, meio sem graça por ter ligado. Ela não disse não. Disse que ia ver e que ia fazer o possível para pelo menos dar uma passada, essas coisas. Na despedida, ela falou bem assim: “Olha, eu vou fazer o possível pra ir, mas se eu não aparecer eu te amo, tá?”. Achei isso tão “Clarice”. Uma Clarice infantilizada. Mas ainda assim, achei.
E não foi mesmo, mas ‘me amava’. Isso fazia alguma diferença, não é verdade? Ah, ela gostava mesmo de Clarice. Uma vez ela leu uma trechinho pra mim, onde a escritora dizia algo mais ou menos assim: "Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo". E seus olhos se encheram de lágrimas.
O que somos, afinal, na história que fazemos a cada dia? Nos meus aniversários sempre penso nisso. Qual é a minha face? Qual é minha identidade? Talvez venha desse questionamento a minha falta de entusiasmo. Aprendemos com a Psicanálise que ‘tudo’ não é possível. Nunca se pode ter tudo. Nunca se pode ser tudo. Sempre falta alguma coisa. Naquele aniversário faltou alguém. Não foi completo. Se não faltasse ninguém, seria? Creio que não. Buscamos todo o tempo a perfeição em nossa existência, mas a vida não é perfeita, é um poema que está sempre se fazendo. E quem fará o poema completo, o poema perfeito? O grande poema, o mais bonito, o mais tocante? A vida não é um poema. Será sempre incompleta, cheio de reticências. A vida é um ‘quase poema’.
Eu não sou completo, meu bem. Eu também sou um quase tudo.
* * * * * * * * * *
Benke*
Beija-flor me chamou: olha Lua branca chegou na hora O Beija-Mar me deu prova: Uma estrela bem nova Na luminária da mata Força que vem e renova
Beija-Flor de amor me leva Como o vento levou a folha
Minha Mamãe soberana Minha Floresta de jóia Tu que dás brilho na sombra Brilhas também lá na praia
Beija-Flor me mandou embora
Trabalhar e abrir os olhos
Estrela d’Água me molha Tudo que ama e chora Some na curva do rio Tudo é dentro e fora Minha Floresta de jóia
Tem a água tem a água tem aquela imensidão tem sombra da Floresta tem a luz do coração Bem-querer!!!
(Milton Nascimento)
* Essa canção é o nome de um curumim do povo Kampa e Milton a dedicou a todos os curumins de todas as raças do mundo. O doce Milton, o nosso eterno curumim da gerais. Vida longa pra ele.
Escrito por Guto às 11h02
[]
[envie esta mensagem]
[link]

A Musa do Meu [Horário de] Verão
Os dias tem sido muito quentes. Esta semana foi especialmente calorenta em BH. Falta aquela brisa. São os resultados do crescimento desordenado. Onde era uma casinha antiga e bela em minha rua, agora existe um muro de madeira. No muro, uma faixa anunciando mais um empreendimento imobiliário. Um edificio alto vai ajudar a tapar o sol, a conter o ar que vem das montanhas. Vai escurecer e esquentar a Rua Ten. Garro, antes tão gostosa e aprazivel. Ontem choveu tanto. Ontem choveu para mais de um mês. Na hora do almoço eu fiquei preso no restaurante. Não dava pra atravessar a rua. Enxurradas gigantescas pareciam querer levar os carros estacionados nas ruas do centro. Chuva torrencial inundava a cidade. Calor e escuridão. Uma lástima. Um enorme saco plático azul vedou a boca de lobo. Não havia pra onde escoar o aguaceiro. A água suja subia a calçada e ameaçava entrar nas lojas e no restaurante. Saco de lixo é um saco, disse a garota de pé ao meu lado, também à espera de uma trégua para vazar. Ô vida, eu me lastimava comigo mesmo.
Além de todo esse calor, da preguiça que bate, da lezeira, da vontade de ficar quieto num canto, ainda teve início o tal horário de verão. Não acreditei quando me informaram no sábado passado que eu tinha que adiantar meu relógio. Havia esquecido. Odeio horário de verão. Custo para acostumar, fico desanimado. Na segunda feira, caramba, eu não conseguia nem me concentrar nos meus afazeres. Não tenho nada contra a mudança de horário, mas que ela fosse então definitiva. Não acho que vale a pena o desgaste fisico e emocional com um resultado tão pífio. Vou sofrer e reclamar sempre, não é mesmo? Ou então me mudar para o Nordeste. E lá, eu poderia viver de brisa. Pois lá não é como aqui. Lá tem brisa. Ai ai.
Enfim, para que não fique parecendo que só estive aqui para reclamar, busquei algo de bom para terminar esse post. Algo bom e bonito. É a Roberta Sá, que foi uma descoberta muito legal em minha vida. Desde que meu amigo me falou dela, dei uma pesquisada e virei fã. Tenho ouvido direto essa cantora maravilhosa. Ela é demais! E ela vem a BH. Que alegria! Aliás, a Roberta está sempre por aqui. Acho que rola um carinho com o público mineiro. Bom pra nós, que podemos ouvi-la e nos encantar com ela. Pelo menos tenho Roberta para curtir no final de semana. Então vou indo, mas volto logo. Don't forget me!
* * * * * * * * * *
Ah, se eu vou
Todo santo dia ela ia Ela ia lá me chamar Pra dançar coco À beirada da saia querendo rodar.
Pelo jeito dela Pelo dengo, pela simpatia Se eu caio na roda Essa moça pode me segurar.
Aí ela vai querer que eu deixe de ir pro samba Aí ela vai querer que eu não vá na ciranda de Lia Aí ela vai querer que eu não saia de perto dela E eu olhando pra beira da saia querendo rodar.
Ah, se eu vou.
(Roberta Sá)
Escrito por Guto às 17h30
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Poema de domingo 
O poema que tenho lido para este domingo é talvez um dos mais belos sonetos da língua portuguesa. E embora seu autor seja considerado o poeta do desencanto, estes versos que aqui relembro, não os sinto totalmente desprovidos de esperança. Poderia se chamar talvez, o poema do encontro.
Alguém surge na vida de outro alguém, assim, sem aviso. Duas almas errantes que se encontram, como nos revela sutilmente o poema, no final de um dia comum. Final de um dia que podemos entender metaforicamente, como final de vida. Eis, então, a sugestão implícita de que nunca é tarde para a chegada do amor. Nunca é tarde para duas solidões, para duas almas solitárias que vivem, cada uma à sua maneira, suas vidas vazias.
Há neste poema o convite ao amor. Amor no sentido mais amplo da palavra: amor que é aconchego, que aquece, na noite fria, os corações frios. Duas pessoas, dois corações perdidos. Uma alma cigana e sem rumo que encontra outra alma a lhe oferecer abrigo, a lhe oferecer paz, serenidade, segurança. A lhe oferecer e a pedir carinho. Um encontro de dois, ainda que breve, ainda que tênue, ainda que fugaz.
O que virá depois, com o nascer da aurora, com a luz do sol, não se sabe. Mas sempre valerá a pena correr o risco. Afinal, todo aquele que passa pela nossa vida, já disse alguém, não o faz impunemente. Deixa um pouco de si e leva um pouco de nós. E como disse outro poeta, ‘de tudo fica um pouco’. No caso dessas duas pessoas, fica uma vida mais leve, uma história para se lembrar. Afinal, o convite é para apenas uma noite. Que não se ouse prender uma alma cigana. Mas o sonho pode, claro, se tornar realidade. Há que se experimentar, para ver no que vai dar. Mas, acima de tudo, ficará para sempre uma história para se contar, uma existência menos solitária, uma vontade, uma saudade...
* * * * * * * *
Duas Almas
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada, entra, e, sob este teto encontrarás carinho: Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho, vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada, e a minha alcova tem a tepidez de um ninho. Entra, ao menos até que as curvas do caminho se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa, essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua, podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha: Há de ficar comigo uma saudade tua... Hás de levar contigo uma saudade minha...
_________________________
[Alceu Wamosy, Poeta Simbolista, nasceu em Uruguaiana – RS em 14 de fevereiro de 1895 (dia do meu aniversário) e morreu em Santana do Livramento no dia 13 de setembro de 1923.]
Escrito por Guto às 11h52
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Uma relação muito delicada 
Lembro-me do meu primeiro dia de aula! pastinha preta com cadernos coloridos, encapados pelo meu irmão mais velho. Na primeira página do caderno, ele desenhou personagens da Disney. Eu todo arrumadinho, com a Merendeirinha pendurada no pecoço, de camisinha branca, short azul ou preto, não me lembro bem... E chorando dentro do quarto, me recusando a sair de lá.
Mas acabei indo. E foram tantos mestres que passaram pela minha vida. Hoje na pos-graduação, nos diversos cursos ou seminários que participo, nas palestras, na vida, lá estão eles, os professores, a me apontar o caminho. Agora numa relação diferenciada, mas ainda assim bela e produtiva. E apaixonada, sempre.
Eternamente estudante, vou vivendo e me encantando com novos saberes/sabores da vida. E isso graças a esses seres especiais, que se dedicam a passar para os outros o seu conhecimento, os seus estudos, as suas horas de dedicação.
Delicada é a palavra exata para exprimir com rigor a relação professor- aluno. O que ela tem de singela e amorosa, tem também de fragil e transgressora. Há aqueles professores que marcam e ficam para sempre em nossa memória. Alguns marcam pelas suas qualidades: Os bons, os amorosos, os carismaticos, os divertidos, os engraçados, os esforçados, os bonitos, os inteligentes, os inovadores. Outros deixam sua marca pela falta dessas mesmas qualidades. Quem se esquecerá daquele professor que nunca deu uma nota 10? Ou aquele que se achava o maximo, e que todos os alunos deveriam se colocar no seu lugar de inferioridade. Os inatingiveis, os insensiveis, os carrascos, que só sabiam cobrar?
Mas professores são sempre dignos de louvor! E eles ganham tão pouco coitados! Pela importância de sua função, quase divina, pela responsabilidade de formar pessoas, eles mereciam ser mais valorizados. Manifestações haverão, como sempre, professores irão para as praças reivindicar, reclamar e se desnudar (literalmente em Sao Paulo). Mas continurão, firmes na arte de ensinar, porque esta não é só uma profissão, é um sacerdócio.
A minha professora da primeira série se chamava Dona Custódia. Ela era muito elegante, tinha gestos graciosos e estava sempre disponivel para nos ajudar. Ela falava um português corretissimo e cheio de palavras estranhas para mim, o que me deixava impressionado, mas as vezes me fazia rir. Eu me recordo que passei um tempo do semestre indo em sua casa para ajudar alguns coleguinhas a melhorar a leitura, pois eu praticamente lia de tudo nessa época. Nessas tardes em sua casa ela me dava licor numa tacinha pequenininha. Tinha álcool, mas era só um pouquinho e naquela época não tinha muito problema. Ela também me ensinou um jogo de baralho chamado 'bisca' e nós jogávamos depois dos estudos. Sua casa era simples mas super bem arrumada. Tínhamos medo de sujar ou quebrar alguma coisa. Ela era muito bondosa, mas muito brava também. Tinha sempre à mão a sua reguazinha de metal e nos ameaçava com ela, quando agitávamos demais na sala de aula. Não me lembro se chegou a utilizá-la, mas creio que não. No final do ano todos os alunos tinham que ler um texto da cartilha para a Diretora. Eu li para a Diretora e para várias outras pessoas. Lembro que eles me chamaram umas três vezes para ler o texto (A Diretora se impressionara com a minha leitura...). E da terceira vez eu já estava totalmente a vontade. O coração já não saltava dando pulos dentro do peito...
* * * * *
Professor
O professor disserta sobre ponto difícil do programa. Um aluno dorme, Cansado das canseiras desta vida. O professor vai sacudí-lo? Vai repreendê-lo? Não. O professor baixa a voz, Com medo de acordá-lo.
(Carlos Drummond de Andrade)
Escrito por Guto às 17h33
[]
[envie esta mensagem]
[link]

O amor que me move 
O que importa a chuva que cai e o calor abafado? Que diferença faz se vou perder uma ou duas aulas ou que eu perca um ou dois dias de trabalho, que importa que eu não vá ver o filme combinado no cinema com aqueles amigos com quem não saio faz tanto tempo devido a agendas incompatíveis?
Eu vou para junto de minha mãe.
Qual o problema de encarar o chefe e pedir para sair mais cedo? E qual a intensidade do receio de pegar a estrada num final de dia chuvoso? O meu medo é menor do que a minha saudade e, além do mais, a chuva sempre pode passar, já a saudade...
Eu vou ver a minha mãe.
Afinal, tudo fica totalmente em segundo plano quando se trata dela. É seu aniversario e no ano passado não fui vê-la. O fato de ter ficado aqui, enquanto todos em casa comemoravam com ela, foi triste, muito triste para mim. Tudo compensa a felicidade de ver o seu sorriso, de beijar muito ela, dar-lhe presentes e ouvir sua voz mansa e cheia de coisas para contar. Na semana que vem estarei de volta. Por agora estou de partida...
Eu vou abraçar a minha mãe...
* * * * * * * * * *
Minha Senhora
Minha senhora Onde é que você mora Em que parte desse mundo Em que cidade escondida Dizei-me que sem demora Lá também quero morar
Onde fica essa morada Em que reino, qual parada Dizei-me por qual estrada É que eu devo caminhar
Minha senhora Onde é que você mora Venho da beira da praia Tantas prendas que eu lhe trago Pulseira, sandália e saia Sem saber como entregar
Quero chegar sem demora Nessa cidade encantada Dizei-me logo senhora Que essa chegança me agrada
(Gilberto Gil)
Escrito por Guto às 14h28
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Prece 
“Eu adoro todas as coisas e o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo: aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, para aumentar com isso a minha personalidade. Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio. E a minha ambição era trazer o universo ao colo, como uma criança que a ama beija. Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras, não nenhuma mais do que a outra, mas sempre mais as que estou vendo do que as que vi ou verei. Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações. A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. Penso nisso, enterneço-me, mas não sossego nunca”.
(Texto de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa)
* * * * * * * * *
My sweet Lord
(George Harrison)
My sweet Lord Hm, my Lord Hm, my Lord
I really want to see you Really want to be with you Really want to see you, Lord But it takes so long, my Lord My sweet Lord Hm, my Lord Hm, my Lord
I really want to know you Really want to go with you Really want to show you Lord BUt it won't take long, my Lord (hallelujah)
My sweet Lord (hallelujah) Hm, my Lord (hallelujah) My sweet Lord (hallelujah)
Really want to see you Really want to see you Really want to see you Lord Really want to see you Lord But it takes so long, my Lord (hallelujah)
My sweet Lord (hallelujah) Hm, my Lord (hallelujah) My, my, my Lord (hallelujah)
I really want to know you (hallelujah) Really want to go with you (hallelujah) Really want to show you Lord(AhhhAhhhh) But it won't take long, my Lord (hallelujah) Hm, hm (hallelujah)
My sweet Lord (hallelujah) My, my, my Lord (hallelujah)
Hm, my Lord (hare krishna) My, my, my Lord (hare krishna) Hm, my sweet Lord (krishna krishna) Hm, hm (hare hare) Really want to see you (hare Rama) Really want to be with you (hare Rama) Really want to see you, Lord (AhhhAhhhh) But it takes so long, my Lord (hallelujah) Hm, my Lord (hallelujah) My, my, my Lord (hare krishna) My sweet Lord (hare krishna) My sweet Lord (krishna krishna) My Lord (hare hare) Hm, hm (Gurur Brahma) Hm, hm (Gurur Vishnu) Hm, hm (Gurur Devo) Hm, hm (Maheshwara) My sweet Lord (Gurur Sakshaat) My sweet Lord (Parabrahma) My, my, my, my Lord (Tasmayi Shree) My, my, my, my Lord (Guruve Namah) My sweet Lord (Hare Rama)
(Hare krishna) My sweet Lord (hare krishna) My sweet Lord (krishna krishna) My Lord (hare hare)
Escrito por Guto às 16h11
[]
[envie esta mensagem]
[link]

O retorno é terno...
Às vezes uma simples palavra, um simples gesto é capaz de mudar o nosso dia, o nosso astral, o nosso desconsolo.
Minha semana, que ora se encerra, foi assim. Pequenas alegrias, rotineiras sensações, alguma expectativa, poucas emoções, um ou outro sobressalto, alguma palavra mais exaltada, um pouco de silencio. Nenhuma novidade, nenhum grande momento, alguma normalidade, alguma desilusão. Mas o pulso, como diriam os titãs, ainda pulsa. E alguma coisa sempre acontece para nos fazer sentir isso, nos fazer sentir a vida em sua magnitude e beleza.
Houve apenas um fato, que me vem agora, que talvez mereça destaque, nestas mal digitadas linhas... o que aconteceu foi algo tão simples, mas tão especial para mim, que não poderia deixar de falar um pouquinho sobre isso. É que eu me preparava para sair pro almoço quando um colega chegou até mim e me disse que eu era especial, que gostava de mim, que só de me olhar as pessoas já sabiam que eu era do bem. Que podiam contar comigo, que eu não era nem um pouco egoísta. Eu sabia que ele falava aquilo como um agradecimento por algo que eu havia feito a ele no campo profissional, umas orientações que lhe passei, sugestões sobre algumas tarefas de trabalho e formas de se enquadrar melhor em seu grupo. Então eu apenas sorri e lhe disse que fazia parte de meu trabalho, que não tinha feito nada demais, e que ele não tinha que agradecer.
Descemos o elevador juntos e nos despedimos no hall de entrada do prédio. Quando retornei do almoço havia um pacote em cima da mesa. Abri e dentro dele havia uma camiseta branca, com motivos ecológicos e um bilhete de agradecimento. Era dele.
Gestos assim tornam a vida da gente melhor. Tornam a gente melhor. Nos fortalece. Ah, ninguém pode mesmo ficar imune a um elogio, a palavras doces, nesses dias tão amargos. Sei que procuro sempre fazer o meu melhor, e isso me basta. Não fico esperando reconhecimento, ou palavras de louvor. Faço minha obrigação como ser humano que vive em comunidade. Mas uma simples palavra, um retorno inesperado é tão importante. Senti isso de forma tão clara, com minha reação a estas simples palavras. Foi um momento bom, uma sensação de dever cumprido. Decidi que devo elogiar mais, agradecer mais e dar feedbacks para as pessoas que estão ao meu lado.
Foi uma semana rotineira, sem maiores acontecimentos, sem nada de novo. Mas no meio disso tudo, um gesto de um companheiro de trabalho fez toda a diferença, no sentido de fazer a vida valer a pena.
* * * * * * * *
ABISMAL
Meus olhos estão olhando De muito longe, de muito longe, Das infinitas distâncias Dos abismos interiores. Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo Para você que está diante de mim. Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face.
(Helena Kolody)
Escrito por Guto às 23h13
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|