Calor que provoca arrepio 
Sexta-feira. Fim de semana está aí. Belo Horizonte, e seu clima seco, amanheceu ensolarada, com uma brisa suave, que faz a gente colocar mangas compridas, mas não nos anima a carregar um agasalho, pois a promessa é de que vai esquentar. E realmente é o que acontece. Agora, escrevo num momento de calma, com as mangas arregaçadas até o ombro. Esta quente, no inverno de Belô. O dia está alegre e o fim de semana promete coisas boas. Mas eu não estou animado, não me conectei ao dia, à sexta-feira, ao tempo das férias. O tempo está seco? Ou o tempo, ou eu mesmo? Ou o tempo e eu? Estou bastante ansioso e um pouco impaciente, embora não haja um motivo concreto para isso. Pelo menos aparentemente, não há.
Talvez eu devesse buscar um pouco de disciplina em minha vida. Talvez eu devesse não seguir assim meio à deriva, esperando que as coisas aconteçam e me deixando levar pelos acontecimentos. Sei que é importante ter uma rota, um caminho, um porto seguro. Mas tenho uma dificuldade que somente, ou talvez somente, os freudianos consigam entender: eu sou um homem que precisa de sentimentos. E é isso que vou buscar...
Estou indo viajar e não sei quando voltarei a postar, talvez em alguns dias, não me decidi ainda quando retorno a BH. Para o momento, pretendo ouvir o ‘Zie e Zii, o disco novo do Caetano, que está lindo. Vou mergulhar nos transambas do meu ídolo e me encantar e ser tocado pelo som, com um cuidado maior e com o tempo que ele demanda para ser absorvido em plenitude.
Vou postar a letra de uma música que o Caetano compôs para cumprir uma promessa que fez aos portugueses de Aveiro, durante um show, quando disse que iria compor uma canção chamada “Menina da Ria” e foi muito aplaudido. Acharam graça por causa do contraponto a “Menino do Rio” famoso sucesso do baiano, há mais de trinta anos no ar. É o máximo essa canção. Elegante, como Portugal, como Caetano, como o sentimento. A repetição insistente do refrão parece um chamado desesperado, uma vontade de ser percebido pela menina. Pode ser um pouco cansativo, mas é lindo...
Menina da Ria
Uma moça De lá do outro lado da poça Numa aparição transatlântica Me encheu de elegante alegria (Ai, Portugal, ovos moles, Aveiro) Menina da Ria Menina da Ria Menina da Ria
E uma preta (Parece que eu estou na Bahia) Tão Linda quanto ela, e pedia No seu português lusitano: “Pode o Caetano tirar uma foto?” Menina da Ria Menina da Ria Menina da Ria
Arte Nova, um prédio art-nouveau numa margem Em frente à marina-miragem: Os barcos na Ria. E depois
Uma taça sobre o pubis glabro, um estudo Nenhum descalabro se tudo É sexo sem sexo em nós dois Menina da Ria Menina da Ria Menina da Ria.
(Caetano Veloso)
Escrito por Guto às 16h04
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Poema para seu domingo 
Para encerrar meus poetas de domingo, trago hoje o maior, para mim, o que mais me toca, o que leio cotidianamente. Trago Carlos Drummond de Andrade, o poeta mineiro de Itabira, cidade onde nasceu no dia 31 de outubro de 1902 e onde viveu sua infancia, que lhe deixou marcas profundas. Ele estudou em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, e em Ouro Preto, onde formou-se em Farmácia nos anos 20. Ainda na década de 20 mudou-se com a familia para Belo Horizonte, onde dedicou-se à carreira jornalistica e ao funcionalismo público, profissões que exerceu até a aposentadoria. Como ele mesmo dizia, dedicou-se à literatura por puro prazer e só passou a se considerar um escritor profissional, após passar a viver integralmente nesta atividade, de onde passou a tirar a fonte principal de seu sustento. A partir dos anos 30 foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou nos principais jornais do país. Mas o coração itabirano, as vivencias na cidade de ferro mineira e o olhar sensivel do poeta sobre a cidade provinciana, foram fundamentais na visão de mundo e na poesia do escritor. Em ‘Confidência do Itabirano’ ele poetiza: “A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, / vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. / E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, / é doce herança itabirana (...) /// Hoje sou funcionário público. / Itabira é apenas uma foto na parede. / Mas como dói!”.
Se na mocidade Drummond se ligou ao movimento modernista, nos seus mais de 60 anos de vida literária sua poesia foi muito além. O texto, elaborado com arte, a palavra como o mais importante. Desde “Alguma poesia”, seu primeiro livro de poemas de 1930, as diversas formas poéticas perpassaram seus versos, livres, mas cheios de rigor e sentimento. Neles o poeta falou de si, seu eu (todo retorcido), de sua terra, de Minas Gerais, da América, do mundo. Neles falou de sua familia, dos amigos, do amor, do estar no mundo e de como isso lhe tocava a alma. Sempre presente em meu blog, ainda assim creio não ter publicado seus grandes clássicos, como o ‘Poema de sete faces’, ‘José’, ou ‘Morte do Leiteiro’. Mas, assim de memória, sei que por aqui se encontram ‘No meio do Caminho’, ‘A bomba’ e ‘Infância’, três poemas famosos. Além desses, me lembro dos menos concorridos, mas que são tudo pra mim, como “Orion”, ‘O enterrado vivo’, ‘cerâmica’, ‘Tristeza no céu’, ‘Mundo grande’, ‘A palavra Mágica’, ‘Tarde de Maio’, ‘Amar-Amaro’, entre outros, que certamente estão por aí...
Drummond teve sua obra traduzida para diversas linguas e verteu para o português autores como Proust e Balzac. Mas, apesar de sua grandeza, teve muitas vezes críticas ferozes à sua obra. Se divertia com elas e se dizia feliz com o estímulo que recebia dos companheiros de geração e mesmo de pessoas mais velhas, que ele admirava e que admiravam sua poesia. Ao morrer, no Rio de Janeiro, no dia 17 de agosto de 1987, felizmente já tinha sua obra unanememente reconhecida e amada por todos que a ela tiveram acesso.
Drummond achava que a literatura, as artes plásticas e a música eram as grandes consolações da vida, eram um modo de elevação do ser humano sobre a precariedade da sua condição. E, Deus, como eu concordo com ele. E como ele me comove!
Termino com este poema da fase do ‘eu’, onde o poeta deixa falar o coração, que é ‘mais vasto que o mundo’, mas pleno de desencanto...
América
I
Sou apenas um homem. Um homem pequenino à beira de um rio. Vejo as águas que passam e não as compreendo. Sei apenas que é noite porque me chamam de casa Vi que amanheceu porque os galos cantaram. Como poderia compreender-te, América? É muito difícil.
Passo a mão na cabeça que vai embranquecer. O rosto denuncia certa experiência. A mão escreveu tanto, e não sabe contar! A boca também não sabe. Os olhos sabem – e calam-se. Ai, américa, só suspirando. Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.
Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não acompanham. Inútil chamá-los: o vento, as doenças, o simples tempo dispersaram esses velhos amigos nos pequenos cemitérios do interior, por trás das cordilheiras ou dentro do mar. Eles me ajudariam, américa, neste momento de tímida conversa de amor.
Ah, por que tocar em cordilheiras e oceanos! Sou tão pequeno (sou apenas um homem) e verdadeiramente só conheço minha terra natal, dois ou três bois, o caminho da roça, alguns versos que li há tempos, alguns rostos que contemplei. Nada conto do ar e da água, do mineral e da folha, Ignoro profundamente a natureza humana e acho que não devia falar nessas coisas.
Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração. Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou. Passa também uma escola –- o mapa --, o mundo de todas as cores. Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se em vermelho, em amarelo, em preto, no fundo cinza da infância.
II
América, muitas vezes viajei nas tuas tintas. Sempre me perdia, não era fácil voltar.
O navio estava na sala. Como rodava! As cores foram murchando, ficou apenas o tom escuro, no mundo escuro. Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra. Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios. Seus passos urgentes ressoam na pedra, ressoam em mim. Pisado por todos, como sorrir, pedir que sejam felizes?
Sou apenas uma rua na cidadezinha perdida de Minas, humilde caminho da América.
Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite. Muitas palavras já nem precisam ser ditas. Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio, certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas, violas sobem até a lua, e elas cantam melhor do que eu.
(Carlos Drummond de Andrade)
Escrito por Guto às 02h11
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Essa luz, só pode ser Jesus 
Eu era menino, nem entendia direito o que a canção dizia, mas quando os vizinhos dos fundos de casa colocavam pra tocar o disco, eu me sentava no alto da escada que dava para o quintal e ficava ouvindo, fascinado, enquanto olhava o céu azul, a laranjeira do quintal, as aves que tínhamos em casa. Era Roberto Carlos cantando para mim, e os versos que ele dizia me tocavam o coração infantil. A música era “As curvas da estrada de Santos” e os primeiros versos já me faziam voar: ‘se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer... Entre no meu carro, na estrada de Santos, você vai me conhecer... ’. A música me comovia tanto. Ainda hoje me comove.
Este é o ano do Rei. São 50 anos de música. E de muitas homenagens. Começou com aquele show em parceria com Caetano, cantando canções de Tom Jobim, ídolo de ambos. Depois o show em que as cantoras brasileiras cantaram seus grandes sucessos. E ontem a noite, quando ele fez um show comemorativo no Maracanã, que foi transmitido ao vivo pela TV, dá mostras da importância de Roberto na cena musical brasileira.
Místico, o Rei fez belas canções de cunho religioso. Na fase em que esteve casado com Maria Rita, levou ao extremo seu misticismo, suas manias. Incomodado com o excesso de superstições, procurou ajuda, depois de saber um pouco mais sobre os transtornos obsessivos compulsivos, em conversa com a atriz Luciana Vendramini. Buscou tratamento e hoje parece mais relaxado, mais descontraído. Afinal, ‘é preciso saber viver’.
Quem poderia imaginar que o filho de Cachoeiro do Itapemirim, que começou a cantar, ainda criança, numa radio de sua terra, incentivado pela mãe iria se tornar esse ídolo da sua geração, o rei da canção. Aquele que amava ouvir Bob Nelson, que gravou seu primeiro disco imitando João Gilberto, que falou de tantas coisas, que tocou tantos corações, que amou, que chorou em público suas perdas, que homenageou o pai (meu querido, meu velho, meu amigo...), que homenageou a mãe (me leve pra casa, Lady Laura, me conta uma história, me faça dormir...), o amigo Erasmo (irmão, camarada) e que falou de amor, em todos os sentidos que esta palavra pode ter.
Na adolescência, tive uma amiga que durante as férias namorou um garoto do Rio que passava férias em nossa cidade. Quando as férias terminaram e ele teve que voltar, minha amiga disse que iria escrever sempre. Mas ele disse que não sabia escrever cartas, por isso que ela não ficasse triste se ele não respondesse. E algum tempo depois, ela recebeu uma carta dele. Lembro-me bem de sua euforia me mostrando o envelope e dizendo: ‘ele respondeu, ele respondeu... ‘. E eu quis ler, claro, o que ele tinha escrito, já que ele dissera que não sabia escrever. Quando ela tirou o papel do envelope e me passou, qual não foi minha surpresa ao ver que ele não escrevera nada. No papel, com sua letra desengonçada estava escrita a letra de ‘Proposta’, música de amor do Roberto.
É isso. Roberto vai sempre poder dizer por nós, o que não podemos, ou não temos como dizer. Ele tem em si essa força, esse carisma, que poucos conseguem passar. Todo mundo que ama, ama Roberto. Ele tem vida, ele tem luz. E vai ficar brilhando por aí por muito mais que cinquenta anos...
* * * * * *
Falando sério
Falando sério É bem melhor você parar com essas coisas De olhar p'ra mim com olhos de promessas Depois sorrir como quem nada quer
Você não sabe Mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez E tenho medo de fazer planos De tentar e sofrer outra vez
Falando sério Eu não queria ter você por um programa E apenas ser mais uma em sua cama Por uma noite apenas e nada mais
Falando sério Entre nós dois tinha que haver mais sentimento Não quero seu amor por um momento E ter a vida inteira p'ra me arrepender
(Roberto e Erasmo)
Escrito por Guto às 20h27
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Poema para seu domingo 
Faltava urgentemente, em meus poetas de domingo, aquela que considero a culpada do meu amor pela poesia, a primeira a me fazer entrar nesse mundo mágico das palavras. Dela vieram a mim os primeiros momentos de magia poética de que tenho noticia em minha existência. E era um mundo de bailarinas, do cavalinho branco, do colar de Carolina... Sim, Cecília Benevides de Carvalho Meireles, ou apenas Cecília Meireles, é a poeta de quem falo.
Cecília nasceu no Rio de Janeiro, no dia 7 de novembro de 1901 e teve ali uma infância de “silêncio e solidão”. Já nasceu órfã de pai e, ainda nos primeiros anos de vida, a mãe também se foi. Criada pela avó, ela viveu, em seus primeiros anos, sentimentos precoces de perda, do efêmero, da transitoriedade da vida. E foi neste ambiente que se moldou o coração da poeta, que começou ainda menina a compor seus versos. O primeiro livro, ‘Espectros’, foi publicado quando ela tinha apenas 18 anos. Silêncio e solidão, sonho e realidade propiciaram o tecido poético de Cecília, fios de uma vida tocada pela poesia:
“ Fio
No fio da respiração, rola a minha vida monótona, rola o peso do meu coração.
Tu não vês o jogo perdendo-se como as palavras de uma canção.
Passas longe, entre nuvens rápidas, com tantas estrelas na mão...
— Para que serve o fio trêmulo em que rola o meu coração?”
Cecília casou-se por duas vezes. O primeiro marido suicidou-se em 1935, vítima de depressão e deixou-a com três filhas. Exerceu, além da poesia, o magistério e o jornalismo. Foi produtora, redatora e radialista. Viajou bastante, esteve em Portugal, na Índia, Europa, nos Estados Unidos, sempre levando sua palavra, em conferências e congressos literários. Sua poesia refletiu sempre sua vivência, sua personalidade. Ela morreu no Rio de Janeiro, no dia 09 de novembro de 1964, mas vive eternamente em sua poesia tocada pelo divino, numa obra etérea, musical, eterna, verdadeira.
Termino este post singelo com um poema também singelo, que em sua singeleza me deixou totalmente paralisado quando o li, um dia, faz um bom tempo. Digitando-o aqui, nesta madrugada de domingo, confesso que sou tomado pela mesma emoção daquele dia primeiro, em que este poema me caiu nas mãos (e no coração), para ficar pra sempre comigo:
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face?
(Cecília Meireles)
Escrito por Guto às 01h45
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