Nome: Carlos Augusto
Apelido: Guto
Cidade: Belo Horizonte
Nasc.: 14 de fevereiro



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QUASE POEMA
 


O prazer é todo meu

Depois da festa infantil e de me encher de doces me peguei a pensar... Para que usar drogas ilegais se temos à nossa disposição tantas delicias? Eu, por exemplo, tenho o vicio do chocolate, de todo jeito e nas mais diversas misturas. Adoro também bolo de aniversario, aqueles bem recheados. Passei muitos anos sem tomar refrigerante, mas ando tendo algumas recaídas (coca zero, uma delicia). Descobri que não sou radical em nada. E que se não como carne vermelha é porque não gosto mesmo e não porque é veneno. Prejudicial por prejudicial, o açúcar não fica devendo muito a algumas drogas proibidas. É um carboidrato que, embora forneça energia, consome do nosso organismo os sais minerais e as vitaminas necessários para nossa vida saudável. E vicia, há e como vicia. Quando eu fumava, eu tomava tantos cafezinhos diários quanto os cigarros fumados. Depois que abandonei o tabaco, o cafezinho continuou fazendo parte da minha vida. Só um tempo depois, por problemas no estomago, tive que diminuir. Mas ainda adoro café. Deveria tomar menos.

Mas se desde os primeiros anos, nas nossas festinhas de aniversário, já vamos sendo empanturrados com estas maravilhas, quem sou eu para lutar contra este poderio bélico, que estimula meus neurônios e me faz sentir prazer... Aproveitemos, então, que não é proibido. E, afinal de contas, a gente sempre pode compensar as nossas frustrações nos dando pequenos prazeres (claro que isso vai depender da intensidade da culpa que virá depois).

 

Como diria aquela humorista gordinha: "drops, balas, chicletes, bombons... ah, isso pooode!!!". Bom mesmo é ser feliz. E o que é o mal? Como dizia Baby do Brasil, o mal é o que sai da boca do homem!!!

 

Uma final de semana doce, para todos.

 

* * * * * * * * * *

 

Não é Proibido

 

Jujuba, bananada, pipoca,

Cocada, queijadinha, sorvete,

Chiclete, sundae de chocolate,

Paçoca, mariola, quindim,

Frumelo, doce de abóbora com coco,

Bala juquinha, algodão doce e manjar.

Venha pra cá, venha comigo!

A hora é pra já, não é proibido.

Vou te contar: tá divertido,

Pode chegar!

 

Vai ser nesse fim de semana

Manda um e-mail para a Joana vir

 

Não precisa bancar o bacana

Fala para o Peixoto chegar aí!

 

Traz todo mundo, 'tá liberado, é só chegar.

Traz toda a gente, 'tá convidado, é pra dançar,

Toda tristeza deixa lá fora; chega pra cá!

 

(Marisa Monte/ Dadi / Seu Jorge)



Escrito por Guto às 11h24
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Poema para seu domingo

Para este domingo trago Ascânio Lopes Quatorzevoltas, o Ascânio Lopes, outro importante poeta mineiro da cidade de Cataguases. Embora tenha nascido em Ubá - MG, no dia 11 de maio de 1906, ele foi, ainda bebê, adotado por uma família de Cataguases e naquela cidade viveu a sua curta existência neste mundo cruel.

Ascânio Lopes foi um dos fundadores da revista 'Verde', que na época era uma espécie de canal para as idéias modernistas vindas de São Paulo, após a famosa semana de arte moderna de 22. No periódico, o poeta teve oportunidade de mostrar, para além do poeta, o crítico e o prosador, tendo recebido elogios e apoio de grandes escritores de seu tempo, como os poetas Drummond e Mario de Andrade.

 

Os poemas de Ascânio são puros, singelos, falam do campo, da infância, do (pouco) tempo vivido. No poema 'Serão do menino pobre' ele descreve: Na sala pobre da casa da roça / papai lia os jornais atrasados. / Mamãe cerzia minhas meias rasgadas. / A luz frouxa do lampião iluminava a mesa / e deixava nas paredes um bordado de sombras.   Seus versos cantam a sua terra, os acontecimentos, o cotidiano, o trabalhador em sua humildade divina. Vejam este "O Tecelão":

 

A mão do tecelão é leve

e breve, e traça iluminuras

de fios, como riscos

suaves e ligeiros

das aves

no ar.

Enquanto outros pensam

em glórias, desejam

palácios,

riquezas,

o tecelão

sonha com

teares pujantes e

tecidos fantásticos.

 

Ufanista, ingênuo, intranqüilo, às voltas com sua saúde frágil, atormentado, talvez, com idéias de morte, o poeta morreu aos 23 anos de idade. Nessa época ele estudava Direito em Belo Horizonte e estava há alguns meses se tratando em um sanatório por conta de uma tosse insistente. Tuberculoso, o jovem Ascânio morreu no dia 10 de janeiro de 1929, um ano após a publicação de seu livro "Poemas Cronológicos", que antevia grandes promessas na literatura poética brasileira, infelizmente interrompidas pela partida precoce do poeta.

 

Deixo hoje um poema que o Ascanio fez para uma jovem noiva imaginária. Coitadinho, viveu tão pouco que nem teve tempo de viver o amor, apenas em sua imaginação vívida de poeta sensível pôde vivenciar esse sentimento. E observem que são versos de dor, de morte, de tristeza... Versos escritos sob a perspectiva da sua própria morte iminente, de sua fragilidade. Não tinha mesmo como ser diferente. 

 

O Poeta da noivinha imaginária

 

Minha pobre noivinha que morreu doente do peito...

Que saudades das tuas mãos enfermas

que acariciavam de leve, de leve, minha face,

numa carícia imponderável quase.

Que vontade de descansar minha cabeça cansada

no teu peito amoroso e ficar chorando baixinho.

E de ouvir, com que infinita amargura,

a tua queixa suave e dolorida:

“Estou cansada da vida como ninguém”.

 

E na sua exaltação sentimental

ele ficou com os olhos cheios de lágrimas

e pôs-se a soluçar baixinho, baixinho,

como uma criança desprezada.

(Ascânio Lopes)



Escrito por Guto às 01h36
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Com Ciência

O que revela o homem? A bondade, o respeito, a tolerância, o caráter, o amor. Principalmente o caráter e o amor, essências do homem de verdade. Isso é o que importa.

 

-------------

 

 

Quem me pariu foi o ventre de um navio

Quem me ouviu foi o vento no vazio

-------------

Vou aprender a ler

Pra ensinar os meus camaradas!

 

-------------

 

O sobrado de mamãe é debaixo d'água

O sobrado de mamãe é debaixo d'água

Debaixo d'água, por cima da areia

Tem ouro, tem prata

Tem diamante que nos "alumeia"

Tem ouro, tem prata

Tem diamante que nos "alumeia"

O sobrado de mamãe é debaixo d'água

O sobrado de mamãe é debaixo d'água

Debaixo d'água, por cima da areia

Tem ouro, tem prata

Tem diamante que nos "alumeia"

Tem ouro, tem prata

Tem diamante que nos "alumeia"

 

(Trechos de ‘Yáyá Massemba’ e ‘Cantiga pra Janaina’ de Brasileirinho, da Bethania).

 



Escrito por Guto às 17h24
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Poema para seu domingo

É da cidade mineira de Cataguases, a poeta que tenho para este domingo de dezembro.  Seu nome é Celina Ferreira e ela nasceu naquela cidade, berço de grandes poetas, em 1928. Além de poeta, ela também foi redatora da rádio MEC e exerceu o jornalismo, no Rio de Janeiro, onde vive atualmente.

Celina é autora de um dos primeiros poemas de que tenho lembrança de ter lido. Ele estava num livro da escola primária. Chama-se ‘Acalanto’ e eu me lembro de alguns versos: ‘meu filho me confessou / baixinho de se entender / ele quer ser marinheiro / um dia, quando crescer... ’. É que a poeta escreveu também para crianças e posso dizer que ela foi uma das responsáveis pelo meu amor pela poesia. Ela e Cecília Meireles, duas fadas que instigaram meu coração infantil e me levaram a ver poesia nas coisas, desde sempre.

 

A poesia de Celina é simples, sem rebuscamentos ou floreios e isso é mais do que maravilhoso, pois as coisas simples são geralmente as mais belas. A beleza está na forma de dizer, no jeito de perceber, na forma de ver do poeta. E esse sentimento, esse olhar, é o que ilumina os seus versos. Percebo neles o olhar de uma mulher que observa tudo, que sente a beleza do dia-a-dia: as coisas da natureza, as coisas do amor, as questões existenciais, o medo, a coragem, o desafio...: ‘sondar a possibilidade do salto e a profundidade do abismo...’ ela diz em “Salto Moral”, poema que publiquei neste blog  em 30/07/04. A solidão também é um tema que perpassa toda a sua poética. A solidão do eu, a solidão do outro que há em mim, a solidão especular, do outro Eu, do duplo. A solidão transfigurada em flor...

 

‘Flor Sozinha

 

Que flor é aquela

na beira do rio ?

Ninguém a descobre

na beira do rio.

A flor é sozinha,

parece comigo.

 

Na beira da vida

também vivo só’.

 

Seus versos são assim, puros, delicados. Sua tristeza, doce. Deixo para que leiam hoje este poeminha que amo, por sua beleza, sua feminilidade, sua simplicidade. São versos melodiosos, singelos, bons para serem lidos em voz alta, devagar, saboreando bem as palavras. É uma dica. Fiquemos, pois, com os versos macios e plenos de romantismo de Celina:

 

Ele me beija tão manso

 

Ele me beija tão manso

que eu penso tudo: cascatas

brotando dentro de mim.

 

Penso flores, penso musgo,

pedrinhas claras, redondas.

rolando dentro de mim.

 

Penso nuvens transparentes,

areias brancas, desertos,

mares longínquos de mim.

 

Ele me beija tão manso

que me perco no meu mundo

tão pequeno e tão sem fim!

 

(Celina Ferreira)



Escrito por Guto às 02h21
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Relendo, na manhã de chuva

As Imagens

IMAGEM: No terreno amoroso, as feridas mais profundas são provocadas mais pelo que se vê que pelo que se sabe.

 

1. (“De repente, quando voltava do vestiário, ele os vê conversando carinhosamente, inclinados um para o outro.”)

 

A imagem se destaca; ela é pura e clara como uma letra: é a letra daquilo que me faz mal. Precisa, completa, caprichada, definitiva, ela não deixa lugar para mim: sou excluído como o sou da cena primitiva, que talvez só exista durante o tempo em que ficou destacada pelo coritorno da fechadura. Eis então, finalmente, a definição da imagem, de toda imagem: a imagem é aquilo de que sou excluído. Ao contrario desses desenhos-charada, onde o caçador está secretamente desenhado na confusão do arvoredo, eu não estou na cena: a imagem não tem enigma.

 

2. A imagem é peremptória, ela tem sempre a última palavra; nenhum conhecimento pode contradizê-la, ajeitá-la, torná-la sutil. Wether sabe muito bem que Charlotte está prometida a Albert, e, no entanto, ele sofre apenas vagamente; mas “quando Albert a abraça pela cintura esbelta um arrepio lhe corre por todo o corpo”. Sei bem que Charlotte não me pertence, diz a razão de Werther, mas contudo, Albert a rouba de mim, diz a imagem que ele tem diante dos olhos.

 

3. As imagens das quais sou excluído me são cruéis: mas às vezes também (reviravolta) fico preso na imagem. Ao me afastar da calçada de um café onde tenho que deixar o outro acompanhado, eu me vejo indo embora sozinho, andando, meio abatido, pela rua deserta. Converti minha exclusão em imagem. Essa imagem, onde minha ausência está presa como num espelho, é uma imagem triste.

 

Uma pintura romântica mostra, sob uma luz polarizada, um amontoado de destroços frios: nenhum homem, nenhum objeto nesse espaço desolado; mas, por isso mesmo, por pouco que eu esteja tomado pela tristeza amorosa, esse vazio pede que eu me projete nele; me vejo como um boneco, sentado sobre um dos blocos, abandonado para sempre. “Estou com frio, diz o enamorado, voltemos”, mas não há nenhuma estrada, o barco está quebrado. Existe um frio especial do enamorado: friozinho do bebê (seja do homem, ou do animal) que precisa de calor materno.

 

4. O que me fere são as formas da relação, suas imagens; ou melhor, aquilo que os outros chamam de forma, eu o sinto como força. A imagem – assim como o exemplo para o obsessivo – é a própria coisa . O enamorado é, portanto, artista, e seu mundo é um mundo invertido, pois nele toda imagem é seu próprio fim (nada além da imagem).

 

De: Roland Barthes em: ‘Fragmentos de Um discurso Amoroso’.



Escrito por Guto às 12h24
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Poema para seu domingo

Lembro-me que era maio, perto do dia das mães, quando tive o meu encontro com Adélia Prado, minha poeta deste domingo. Aconteceu que, lendo avisos no mural da faculdade, deparei-me com os versinhos singelos: “minha mãe cozinhava exatamente: / arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas / mas cantava”. Longe de minha mãe, os versos mexeram comigo e ficaram na minha cabeça como um mantra. A partir dali o mundo de Adélia se descortinaria para mim.

Adélia Prado nasceu no dia 13 de dezembro de 1935, na cidade mineira de Divinópolis e ali vive até hoje, ao lado de seu marido Zé, amor de sua vida. Ela se formou em Filosofia no inicio da década de 70 e foi por essa época que descobriu sua poesia como uma coisa sua, diferenciada enfim da literatura que a influenciava. De ‘sua turma’, como ela diz, que seria a escrita de Drummond, Clarice, Guimarães Rosa. Assim, enviou poemas a Affonso Romano de Sant’anna, que os mostrou a Drummond, que por sua vez sugeriu a uma editora a publicação de seu primeiro livro, o “Bagagem”.

 

A poesia de Adélia, em minha forma de ver, revela a sua visão do cotidiano, de suas vivencias, de uma forma tão linda que toca o divino. A poesia está em tudo, é um dom dado por Deus, uma paixão que pode vir e pode faltar, como são as paixões: 

 

‘Paixão

De vez em quando Deus me tira a poesia
olho pedra, vejo pedra mesmo’.

 

 A mãe, o pai, familiares, conhecidos, o marido, a infância, o sonho, a fé, o mundo interior e exterior se exprimem na poesia desta intelectual que é mãe, esposa, amiga. Sua sensibilidade poética abstrai do cotidiano seus versos magistrais, que se nutrem de tudo que a vida lhes oferece. Sobretudo a fé e o amor.

 

Entre os meus livros de cabeceira há dois livrinhos especiais para mim. E são ambos de Adélia. ‘Bagagem’ e ‘Oráculos de Maio’ são duas obras primas às quais recorro sempre, em todos os momentos da minha vida. São os meus ‘evangelhos’, já que não sou de ler a bíblia. E tenho com a poesia de Adélia Prado essa coisa mística que me alenta e me fortalece.  A poeta é católica e sua fé perpassa toda a sua obra e me toca o coração. Ela é minha teologia. A propósito, ela tem um poema chamado Teologal que mostra bem isso: ‘Agora é definitivo: / uma rosa é mais que uma rosa. / Não há como deserdá-la / de seu destino arquetípico. / Poetas que vão nascer / passarão noites em claro / rendidos à forma prima: / a rosa é mística’.

 

Adélia Prado me acompanha também neste blog, sempre me inspira, e muitas vezes a tenho citado por aqui. E são vários poemas a enriquecer este meu espaço. Adélia é lírica, é bíblica, é uma deusa para meus dias melancólicos de domingo. Não escolhi o poema para hoje. Seria difícil para mim, já que é tudo tão perfeito. Preferi então abrir, ao acaso, o ‘Bagagem’ (como costumam fazer os crentes com as escrituras sagradas), e foi na pagina 82, onde encontrei esta maravilha, que compartilho com todos:

 

A Serenata

 

Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mãos incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou viro santa.

Eu que rejeito e exprobo

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

-- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?

(Adélia Prado)



Escrito por Guto às 01h37
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O amor de ontem, de hoje, de sempre - 2 

Quando dona Letícia morreu, passada dos 80, a vizinha disse ao vê-la, dormindo serena em seu caixão ornado com flores brancas: -- deveriam tê-la coberto com um manto branco como o de Maria, pois ela era pura, morreu virgem, nunca teve homem...

Ela não conheceu um homem no sentido bíblico, mas teve um amor que muito poucos em minha cidade se lembrariam. Um jovem soldado que, num entardecer outonal, sentados na grama do parque municipal, por um instante breve, tocou seus lábios e depois, com medo de desonrá-la pela ousadia, pediu sua mão e dela ficou noivo por dois anos.

 

Quando foi transferido para uma cidade vizinha, o noivo foi escasseando as visitas, até que um dia apareceu para dizer que conhecera outra senhorita, com quem simpatizara e terminou, sem muito rodeio, o noivado.

 

Dona Letícia nunca mais teve vida social. Há não ser pelas idas constantes à missa, não saiu mais de casa.

 

Lendo, nas paginas de fofocas, o barraco do final de namoro da atriz Luana Piovani por quem, aliás, tenho uma grande admiração, com o Dado Dollabella, por quem, aliás, não tenho admiração alguma; lembrei-me dessa antiga senhora, do respeito que todos em minha rua tinham por ela, de seu carisma. Era como uma grande trágica, uma atriz de alto drama, quando entrava pela igreja com seu terço na mão e com o véu na cabeça.

 

Em outros tempos terminar uma relação amorosa presumia um período de luto, que podia durar até a vida inteira. Uma vida, como no caso de Dona Letícia. Nos dias atuais, uma relação de amor dura o período de um barraco. Acabou a briga, acabou o amor. Luana se diverte lépida e fagueira. E segundo informação de uma colega de trabalho, já está de namorado novo.

 

Dona Letícia, antes, terá sido feliz em sua vida de renuncias?  Luana Piovani, hoje, será feliz nessa vida de superfície?

 

* * * * * * * *

 

Drama Seco

 

O noivo desmanchou o casamento.

Que será da noiva – toma hábito

ou se consagra à renda de bilro para sempre?

Tranca-se ao jeito das viúvas trágicas.

O noivo fica noivo novamente,

de outra moça, em outra rua.

A noiva antiga que dirá

em seu quartinho negro, à hora em que...?

À hora em que

passar a pé

o noivo com

seu cortejo, braço dado a braço dado,

rumo da noiva nova,

diz-que da antiga casa de noivado

a água descerá, em punição.

Lá vai o cortejo

todo ressabiado,

terno noivo

terno novo

preto de medo,

vestido novo

branco de medo,

olho no medo

no céu da casa.

Todas as janelas secamente fechadas,

sequer uma lágrima

pinga na lapela do noivo.

 

(Carlos Drummond de Andrade)



Escrito por Guto às 11h42
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A gente mal nasce, começa a morrer

Nunca se está preparado para o grande final, para o encontro com ‘a indesejada das gentes’, que inevitavelmente chega para todos nós.

Se à partida final antecede um período de dor, de enfermidade, de preparo ou de espera, tem-se a ilusão de que a morte, afinal, não surpreenderá, não fará sofrer o que ficou, pois já se disse que saudade é só para quem fica.

 

Mas a verdade é que, de surpresa, repentinamente, ou depois de uma longa e difícil temporada de espera, haverá aquele momento, aquele ultimo segundo e depois, mais nada. O que vemos então? Apenas um corpo amado inerte para todo o sempre enquanto a alma, se é que existe, voa para longe, para o céu dos passarinhos. Também ela se vai de nós que, aqui, saudosos, sentimos a impotência primordial. E choramos. É duro morrer. Mais duro ainda ver ir embora os que amamos.

 

* * * * * *

 

Poema de Finados

 

Amanhã que é dia dos mortos

Vai ao cemitério. Vai

E procura entre as sepulturas

A sepultura de meu pai.

 

Leva três rosas bem bonitas.

Ajoelha e reza uma oração.

Não pelo pai, mas pelo filho:

O filho tem mais precisão.

 

O que resta de mim na vida

É a amargura do que sofri.

Pois nada quero, nada espero,

E em verdade estou morto ali.

 

(Manuel Bandeira)

 

A gente morre um pouquinho junto com cada um dos nossos que se vão... :´-



Escrito por Guto às 18h10
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