Nome: Carlos Augusto
Apelido: Guto
Cidade: Belo Horizonte
Nasc.: 14 de fevereiro



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QUASE POEMA
 


"Última flor do Lácio, inculta e bela"

A semana começou com acalorados debates acerca da assinatura, pelo presidente Lula, do decreto sobre a reforma ortográfica, que aconteceu na Academia Brasileira de Letras, durante cerimônia de 100 anos da morte de Machado de Assim, o patrono daquela Casa.

Eu amo a língua portuguesa. Mas amo também o espanhol ou o Inglês. Na verdade me apaixonam os idiomas todos, os signos lingüísticos, as palavras. Talvez por isso não me sinta tão incomodado com as reformas que, diga-se de passagem, nem são tantas assim. Quanto ao argumento que busca justificar essas mudanças, acho-o totalmente fraco e inconsistente. Parece que se busca uma unificação da língua falada nos países de língua portuguesa. Unificação que é utópica tendo em vista que cada país vai sempre ter a sua cultura, as suas influências, as suas vivências e isso interferirá naturalmente no uso de sua linguagem. A língua é naturalmente viva, vibrante e é assim que deve ser. Não serão reformas ínfimas que irão facilitar o intercâmbio cultural ou comercial entre os países de língua portuguesa, o que parece querer lograr essa suposta unificação.

 

Sofrer mudanças é natural. Mas fico me perguntando se isso é tão importante nesse momento em que ações mais urgentes se fazem necessárias na área da educação. Fico observando a forma como a turma jovem se expressa nos seus e-mails, nos seus blogs, nas suas páginas pessoais subvertendo totalmente as normas gramaticais e me pergunto se é realmente necessário fazer tanto estardalhaço em cima de uma mudança tão insignificante. Quem está interessado em saber se a manchete no jornal diz sequestro ou seqüestro? Ou ainda se o amigo escreveu acto ou ato, excepto ou exceto?

 

Concordo com o José Saramago, nobilíssimo escritor português, quando ele diz que ‘os donos da língua são os que a falam’. A língua é do povo. Deixemos, portanto, que a coisa aconteça naturalmente. Entendo que Portugal, por exemplo, sendo uma nação mais, digamos, conservadora, tenha mesmo uma dificuldade maior de aceitação dessas reformas ortográficas, apegados talvez a questões culturais, aos antepassados, a história. Mas deixemos os preconceitos de lado e busquemos a atualização. Eu sempre optei pela palavra mais liberta, pela escrita menos rebuscada e mais facilitada possível. Vejam meu último post, quando falei de Miguel Torga. O poema escolhido prima pela simplicidade nos termos. O mesmo aconteceu com o post de Almeida Garret, cujo poema poderia ser escrito hoje sem alteração alguma.

 

Não há razão para tanta celeuma. Decretemos a liberdade também para o uso da língua. Mas o presidente não precisa assinar embaixo.

 

****

 

O assassino era o escriba

 

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.

Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,

regular como um paradigma da 1ª conjugação.

Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,

ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito

assindético de nos torturar com um aposto.

Casou-se com uma regência.

Foi infeliz.

Era possessivo como um pronome.

E ela era intransitiva.

Tentou ir para os EUA.

Não deu.

Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.

A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,

conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.

Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

 

(Paulo Leminski)

 

****

"Gosto da língua tal qual a escrevo, mas não posso impor a 150 milhões de pessoas os meus gostos pessoais. Recordo que aprendi a escrever mãe com 'e', depois me mandaram escrever com 'i', e depois voltaram a mandar escrever com 'e', quando a mãe era sempre a mesma".(José Saramago)

****



Escrito por Guto às 22h48
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Poema para seu Domingo

Para este domingo de primavera, trago um português de Trás-os-Montes, nascido no dia 12 de agosto de 1907. Seu nome de batismo era Adolfo Correia da Rocha, mas aos 27 anos, ao publicar o seu segundo livro de poesias, adotou o nome de Miguel Torga, que o tornou conhecido e admirado não somente como poeta, mas também como autor de romances, contos e peças de teatro, que lhe renderam uma obra densa, consistente e muito premiada.

A princípio a vida do poeta não foi fácil. A infância humilde e cheia de dificuldades foi vivida no campo, onde trabalhava a terra com os pais. Aos treze anos veio para o Brasil, adotado por um tio, fazendeiro. O tio brasileiro o levou de volta algum tempo depois para Portugal e custeou seus estudos de medicina. Sim, o Torga era médico e exerceu a profissão em sua terra natal.

 

A poesia de Miguel Torga reflete a sua vida, as suas vivencias, as suas angustias pessoais. Ele, que já em criança leu avidamente os contos dos Irmãos Grimm e as fábulas de La Fontaine, depois as primeiras leituras como seminarista, durante um ano, no Porto, antes da viagem ao Brasil. O menino traria para sempre as marcas desse tempo vivido distante da terra que tanto amava e longe da qual se sentia sem raízes. Talvez aí esteja a resposta à escolha pelo poeta do nome Torga, que é uma urze com raízes duras e muito firmes, que se prende às rochas nas montanhas.

 

Seus poemas cantam o país natal, falam da terra, do homem, dos sentimentos inerentes aos sensíveis, como a condição social, a luta política, os desejos românticos, as ansiedades e sofrimentos pessoais. Seus versos têm uma força e uma beleza inegáveis.  Suas reflexões tocam a nossa alma. Vejo isso nestes versos retirados de ‘Bucólica’, onde revela o que pensa da vida: “A vida é feita de nadas / De grandes serras paradas / À espera de movimento; / De searas onduladas / Pelo vento”.

 

Miguel Torga faleceu no dia 17 de janeiro de 1995. 12 anos antes, em Coimbra, havia escrito os versos de ‘Memória’, onde fala de seus sofrimentos na vida: De todos os cilícios, um, apenas, / Me foi grato sofrer: / Cinqüenta anos de desassossego / A ver correr, / Serenas, / As águas do Mondego.

 

Escolhi hoje um poema onde vemos o lirismo do poeta ao fazer suplicas ao seu amor. Uma pessoa? Um país? Com certeza, um amor...

 

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

(Miguel Torga)



Escrito por Guto às 01h06
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Mundo dos blogs: Memes e Mimos...

Aprendi, no mundo blogueiro, muitas coisas. Aprendi que MEMES*, por exemplo, são cópias do que vemos o outro fazer, gostamos, achamos que é bom e imitamos. Outros que nos vêm fazendo também gostam e repetem.

Um exemplo disso é esse Meme, que vi num dos blogs que visito e que achei legal. Então resolvi criar o meu também:

 

Guto Oliveira por Caetano Veloso

 

Descreva-se:

 

- Sou tímido e espalhafatoso,

  torre traçada por Gaudi

 

O que as pessoas acham de você:

 

- De perto ninguém é normal

 

Descreva sua ultima relação:

 

- No mundo um grande amor perdi...

 

Descreva sua relação atual:

 

- Quero que pinte um amor bethania...

 

Onde queria estar agora:

 

Bahia onipresentemente

Rio e Belissimo Horizonte.

 

O que pensa sobre o amor:

 

A vida ( que é meu bem meu mal )

 

 

Se tivesse direito a apenas um desejo:

 

- Gotas de leite bom na minha cara

  chuva do mesmo bom sobre os caretas.

 

 

Uma frase sábia:

 

- Respeito muito minhas lágrimas

 

Uma frase para os próximos:

 

- Sem mágoas estamos aí...

 

*Este Meme pode ser feito usando várias músicas de um cantor de sua preferencia, ou usando nas respostas títulos das canções. Pode também, como foi meu caso, ser respondido em cima de uma música específica que, no meu caso, foi Vaca Profana, do Caetano.

 

****  *********  ****

 

Recebi este presente do André Kaworu e fiquei muito feliz. Fica, então, registrado:

 

 

Com o Prêmio Dardos se reconhece os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc, que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.

 

E possui três regras:

 

1- aceitar exibir a imagem.

2- Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.

3- Escolher 15 blogs para entregar o Prêmio Dardos.

 

Como não pretendo indicar nominalmente nenhum dos blogs que visito, por achar que todos são merecedores, deixo aí dedicado a todos da minha lisitinha de amigos.

 

 

“Não há poema em si, mas em mim ou em ti”. (Octávio Paz))



Escrito por Guto às 12h28
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"Vejo Flores em você"
 
 
E eis que chega a Primavera. No passeio, de volta para casa, meus pés pisam flores do ipê que inundam a calçada de um mar branco e belo. Dá uma vontade súbita de brindar à vida, ao novo tempo, à nova estação. Mesmo vivendo um momento meio nebuloso, sinto desejo de celebrar e me sinto bem. Me sinto confortável e com desejo de passar esse estado de espírito para o mundo. Viver pode ser simples. Ver as flores, tocá-las, senti-las. É bom para a alma e um presente dos deuses para nós que tanto nos lamentamos com a palidez do mundo.
 
A primavera trás em si uma idéia de recomeço. Sementes que brotam, florescem e embelezam. Há flores nas praças, nos jarros, nos cabelos das meninas, nos corações. É bom estar vivo e eu gosto de dizer isso respirando profundamente para que entre nos pulmões, cheios de ar, os perfumes das flores da primavera.
 
Subitamente sentimos que nosso jardim pode florir. Sentimos vontade de regá-lo, tratá-lo, cuidá-lo.
 
Oprimidos, destroçados, desiludidos, invernais... as coisas têm jeito. Vamos rápido olhar as rosas. Ver as cores de setembro. Chegou um novo tempo. Vamos colher as flores da esperança.
 
O Verbo Flor
 
O verbo flor
é conjugável
por quase todas as pessoas
em certos tempos definidos.
a saber:
quase nunca no outono
no inverno quase não
quase sempre no verão
e demais na primavera
que no coração
poderá durar
e ser eterna.
quando o verbo conjugar:
quando eu flor
quando tu flores
quando ele flor
e você flor
quando nós
quando todo mundo flor.
 
(Renato Rocha)



Escrito por Guto às 18h33
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Dias felizes para Amy Winehouse

Ontem a noite e também hoje pela manhã, vindo para o trabalho, eu escutava a música de Amy Winehouse.  Neste último domingo, dia 14 de setembro, foi o dia de seu aniversário. Ela completou  25 anos de idade. Os amigos fizeram uma festa para ela num pub londrino, mas parece que ela não compareceu. Fiquei me perguntando o motivo, já que ela é das noitadas e das farras, regadas a bebida, cigarros, drogas... e essa desculpa de que estava feia é só isso mesmo, uma racionalização.

Talvez Amy não goste de comemorar o seu aniversario. Fato que, não querendo dar uma de psicanalista (e já dando), pode revelar algum descontentamento com a vida, com sua propria existencia.

 

Existem algumas pessoas que são  talentosas, extravagantes, pouco convencionais, quase bizarras, mas que me fascinam. Amy faz parte deste grupo. Gosto tanto de vê-la no vídeo, de ouvir sua voz, até suas loucuras tem algo de poesia para mim.

 

A cantora londrina, que ganhou sua guitarra aos 13 anos, vinda de uma infância das mais complicadas, sabia das traições do pai, que tinha outra mulher. Foi nessa familia desestruturada que Amy se iniciou na música, ainda adolescente, montando uma banda, com amigas; arrumou um namorado maluco e caiu na vida...

 

Em sua trajetória lançou dois discos lindos. Tem os elogios da critica especializada e um número infindável de fãs, que não se cansam de ouvir seu som de estilo todo proprio, com fortes influências do Jazz e do Soul.

 

Mas voltando à motivação desse post, para além de lembrar do aniversário da cantora, queria tocar numa questão muito relevante para mim, que é a vontade de entender o que leva gente talentosa, vibrante e bonita à autodestruição, a fazer coisas que são sabidamente destrutivas. Amy é assim, ela briga na rua, ela quebra bares, ela agride pessoas, ela se expõe até o limite máximo, como se uma força a impulsionasse para o fim. Muito já se especulou sobre o que leva celebridades à autodestruição. Penso que para estas pessoas o sucesso, o reconhecimento público, o aplauso, não são suficientes para encobrirem um vazio que as acompanha. Vazio esse, aliás, que todo ser humano tras dentro de si, mas que em algumas pessoas, mais sensiveis, ultrapassam a linha do tolerável e essas pessoas buscam preenchê-lo com o reconhecimento, o olhar do outro sobre elas. "Olha como eu sou amado" é como se dissessem aos seus corações machucados. Porém, para essas pessoas, a fama acaba por revelar que aquele vazio, aquela angustia, aquela fraqueza, ainda continua lá, que não bastaram, o dinheiro e o reconhecimento, porque a dor é maior que aquele sucesso todo. Drogas, brigas, bebedeiras, são uma busca de preenchimento, de satisfação, de gozo. Isso só pode mesmo levar a morte. A paz absoluta.

 

Existe na internet um site denominado "When Will Amy WineHouse Die"  que, por mais absurdo que possa parecer, quer que os internautas adivinhem quando Amy Winehouse vai morrer. Você não só escolhe uma data, como pode deixar condolencias prévias. Parece cômico, mas é tão triste. Na noite do aniversário de Amy, ouvindo seu som rhythm and blues, fiquei pensando que ela é uma  estrela de primeira grandeza, que compõe e canta lindamente, que tem tudo para ser feliz. E eu quis fortemente em meu coração que ela saia dessa, que ela viva muitos anos, que não se vá cedo, como Janis Joplim, como Cazuza ou Elis Regina. Que seu namorado deixe a prisão e juntos possam viver felizes para sempre.

 

Rehab

 

They tried to make me go to rehab

But I said 'no, no, no'

Yes, I've been black, but when I come back

You'll know-know-know

I ain't got the time

And if my daddy thinks I'm fine

He's tried to make me go to rehab

But I won't go-go-go

 

I'd rather be at home with Ray

I ain't got seventy days

'Cause there's nothing

There's nothing you can teach me

That I can't learn from Mr. Hathaway

 

I didn't get a lot in class

But I know it don't come in a shot glass

 

They tried …

 

The man said "why do you think you're here?"

I said "I got no idea.

I'm gonna, I'm gonna lose my baby,

So I always keep a bottle near."

He said "I just think you're depressed,

Kiss me here, baby, and go rest."

 

They tried …

 

I don't ever want to drink again

I just, ooh, I just need a friend

I'm not going to spend ten weeks

And have everyone think I'm on the mend

 

It's not just my pride

It's just 'til these tears have dried

 

They tried …

 

(Amy Winehouse)



Escrito por Guto às 15h02
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Poema para seu Domingo

Volto neste domingo a um poeta de nossos dias. Trago, hoje, um poema de Rodrigo Garcia Lopes, paranaense, nascido no dia 02 de outubro de 1965, em Londrina. Devo dizer que, do pouco que conheço da poesia do Rodrigo, ela me deixa muito perturbado, muito tocado. Penso que é um bom momento para ler um pouquinho de sua poesia.

Poeta ainda jovem, não há muito que falar sobre uma biografia que tem muito a ser escrita, para nosso deleite. O que pude saber dele é que já viajou bastante, estudou nos Estados Unidos, onde realizou tese de mestrado sobre a literatura de Burroughs, na Universidade do Arizona. Antes disso, nos anos 80, esteve na Europa, passando pela Itália, Inglaterra, entre outros.

 

Rodrigo é Jornalista e tem trabalhos em jornais e revistas literárias. Atualmente é editor da revista Coyote. Publicou, em 1996, um livro onde reuniu entrevistas com escritores e artistas norte-americanos chamado “Vozes e Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje”. Seu doutorado em Letras/Inglês foi sobre a poesia de Laura Riding. Ele é também tradutor, tendo vertido para o português, poetas como Rimbaud, Ezra Pound, Sylvia Plath, Samuel Beckett, entre outros.

 

Sua poesia, a meu ver, tem algo de descritivo, de sentimento vibrante das coisas do mundo, de paisagens (internas às vezes), de momentos. Em “Pensagem” ele escreve:

 

“Coisas vistas uma só vez,

        nítidas, brisa ao revés.

Partículas de tempos,

        possibilidades de luz”.

 

Ele deve gostar de fotografia, do olhar, da imagem e sua poética revela isso, lançando uma luz (traduziu Iluminations, de Rimbaud) sobre as coisas. Coisas que, para concretos -- de quem me parece que ele tem alguma influência -- “têm cheiro, massa, volume, tempo, forma, cor... as coisas não tem paz”, como descreve Arnaldo Antunes, em “As coisas”.  Ligado também à musica, trás isso em seus poemas que têm sonoridade e melodia.

 

O poema que deixo aqui, do livro “Visibilia” fala desse outro, esse sujeito que existe em nós, que está em nós, mas que é fugaz. O grande Outro, que fala em nós, por nós, e desaparece. Amo este poema.

 

Fugaz

 

passagem por uma paisagem,

lugar do onde, do ontem, do quando,

quantas palavras ficaram faltando

na boca cheia de imagens.

 

o outro é aquele que ficou à margem,

no espanto de um pronome,

no corpo de uma brisa suave;

o outro é como uma fome

pluma à deriva, à distância, ou quase.

 

estranho em sua própria viagem,

garrafa com uma mensagem,

olhar durando numa flor,

sem nome, secreta, selvagem.

 

Desterro, água bebida num trem,

peça incompleta, festa adiada, vertigem,

a cabeça sempre em alguém,

eu outro, eu todos, ninguém.

 

(Rodrigo Garcia Lopes)



Escrito por Guto às 01h07
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Eu vou sair do fundo do mar

Alegria, alegria de viver, de ser e de estar. De viver neste mundo de hoje, de tantas mudanças, de rapidez, de stress, de novidades instantâneas. De ser um dos que podem ter o privilegio de acompanhar as descobertas da ciência, da tecnologia. Alegria, alegria de estar aqui, agora, neste mundão de meu deus que ficou pequenino com a globalização.

Alegria, isso parece até nome de palhaço.  Palhaço Alegria? Ah não, não é alegria, é Arrelia. É isso: Palhaço Arrelia. Me confundi com as palavras. Mas de qualquer forma o Palhaço Arrelia é sinônimo de alegria também.  Assim como o Circo, gargalhadas, brincadeiras, magia...

 

Alegria é uma coisa do agora. Desse instante-tempo. Alegria é fugaz. É coisa que dá e passa. Sejamos alegres, então, como nos sugeriu um dia a melancólica Clarice Lispector. Nos recusemos a ser tristes, como ela fez e propôs que nós, seus não menos melancólicos seguidores, fizéssemos, tal qual filhos de uma mãe divinal. Filhos da mãe Clarice.

 

Vamos repartir alegria, espalhar pela cidade, sorrir com gosto e desejar que o mundo toda sorria também. Porque ser alegre é quase como um exercício. Um exercício que costuma ser meio puxado, dependendo de nosso momento de vida.  Mas hoje, assim do nada, não sei de onde me veio a vontade de estar alegre e este post é um exercício de alegria.

 

Porque alegria a gente tira de algum cantinho escondido dentro de nós, a gente colhe e passa para os que estão próximos, a gente até a sente com sinceridade.

 

Alegria é ainda o nome de um dos espetáculos do Cirque du Soleil. E eu também me vejo a mim como uma pessoa que tem alegria. Um palhaço neste mundo de ilusões e de consumo, de consumição. Um mundo feito para a alegria. Já para a felicidade... não.

 

Alegria

Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar o novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e dançar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar eu vou te dar eu vou

Hoje tem goiabada
Hoje tem marmelada
Hoje tem palhaçada
O circo chegou

Hoje tem batucada
Hoje tem gargalhada
Riso e risada
Do meu amor

(Arnaldo Antunes)



Escrito por Guto às 11h11
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Poema para seu Domingo

Para este domingo trago um poeta do Romantismo Português. Seu nome é João Batista Silva Leitão de Almeida Garrett, ou apenas Almeida Garrett. Ele nasceu no Porto, em 04 de fevereiro de 1799, onde passou a infância. Estudou Direito em Coimbra e, enquanto estudava, envolveu-se em política e em poesia.

Aos vinte anos publicou seu poema “O retrato de Vênus” e esses primeiros versos escandalizaram a sociedade que o consideraram obscenos, imorais e materialistas demais.  Envolvido em revoluções políticas, o nosso liberal poeta exilou-se na Europa, logo depois de formado. Lá, influenciado por Byron, escreveu os primeiros poemas do movimento romântico português. Nos anos 30 retornou a Portugal onde exerceu diversos cargos políticos ao mesmo tempo em que impulsionou a cena teatral, com a criação do Conservatório de Arte Dramática, inaugurou teatros, promovendo peças e renovando a linguagem teatral introduzindo temas próximos ao país, mais naturais e menos formais.

 

Os poemas de Garrett embora tenham o rebuscamento e o tom do discurso, inovam ao falar de temas simples, amores, paixões exacerbadas sem a preocupação excessiva com métrica ou rimas, mas com o ritmo e a sonoridade. Seu estilo abriu o caminho para os novos poetas românticos de seu país.

 

Na vida pessoal, nosso Garrett também foi bastante inovador. Tendo sido um jovem revolucionário, tornou-se, na maturidade, um homem da vida social, elegante, sempre bem trajado, sempre apaixonado. Teve muitos amores a acompanhá-lo pelos salões das noites lusitanas. Nosso poeta morreu no dia 19 de dezembro de 1854, em Lisboa, vitimado por um câncer hepático.

 

Para hoje havia pensado no poema “Este Inferno de Amar”, ultra-romântico e cheio de arroubos apaixonados, mas decidi-me agora por outro que gosto muito. O poema me dá uma sensação de rito de passagem, de uma fase de vôos intensos e sonhos para um encontro com a realidade, o chão duro e frio da vida real. Espero que apreciem como eu.

 

As Minhas Asas

 

Eu tinha umas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Que, em me eu cansando da terra,

Batia-as, voava ao céu.

– Eram brancas, brancas, brancas,

Como as do anjo que mas deu:

Eu inocente como elas,

Por isso voava ao céu.

 

Veio a cobiça da terra.

Vinha para me tentar;

Por seus montes de tesouros

Minhas asas não quis dar.

– Veio a ambição, co'as grandezas,

Vinham para mas cortar

Davam-me poder e glória

Por nenhum preço as quis dar.

 

Porque as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Em me eu cansando da terra

Batia-as, voava ao céu.

 

Mas uma noite sem lua

Que eu contemplava as estrelas,

E já suspenso da terra,

Ia voar para elas,

– Deixei descair os olhos

Do céu alto e das estrelas...

Vi entre a névoa da terra,

Outra luz mais bela que elas.

 

E as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Para a terra me pesavam,

Já não se erguiam ao céu.

 

Cegou-me essa luz funesta

De enfeitiçados amores...

Fatal amor, negra hora

Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora

Que provei nos seus amores

O doce fel do deleite,

O acre prazer das dores.

 

E as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu

Pena a pena me caíram...

Nunca mais voei ao céu.

 

(Almeida Garrett)



Escrito por Guto às 01h34
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Sonhos, noites e trovões (um post em dois tempos*)

“Nas noites estranhamente secas deste setembro tudo era expectativa e tudo esperava. Tudo era um vir a ser. Mas aquele sonho não se realizou e tudo é árido agora. Tudo é seco como a noite com baixíssima umidade do ar em minha cidade. Oh, é tão triste ver sucumbir um sonho... Fica uma sensação dolorida de que tudo nesta vida é para dar errado, que a (minha) vida não presta!

Estarei fadado ao fracasso? Pergunto ao meu coração frustrado e oprimido. Mas ele não me responde, porque os corações são apenas músculos que a gente, em nossa fantasia, imagina e acredita que seja responsável e guia de nossos sentimentos. Sentimental, eu teimo em me emocionar, ao invés de racionalizar e ter objetividade mental. Jamais a racionalidade, jamais um pensamento Iluminista. Tudo é esse romantismo fora de propósito. Nada pode dar certo mesmo!

 

 

Faz tempo que não chovia, mas hoje, agora mesmo, repentina e surpreendentemente, caiu a chuva. Uma tempestade que veio cheia de fúria e lavou a cidade. Trovões aceleraram meu coração machucado. Raios rasgaram o céu e cortaram os fios de luz, trazendo a noite impiedosa para minha casa às escuras. Tomado pela nostalgia voltei às noites da minha infância, aos meus medos infantis. Cresci! Hoje já não tenho nenhum receio do escuro. Apenas uma melancolia tênue que me invade nesta noite em que penumbra e chuva me invadem por fora e por dentro. Os medos agora são outros, mais consistentes, mais fortes, mas não saberia dizer com certeza até que ponto são reais. Medos são fantasmas que, como ocorre comigo nesta noite, agora, neste momento mesmo, oprimem, assustam, impedem de dar o próximo passo...

 

Por agora, acender mais uma vela para que seja feita a luz e... esperar (enquanto escrevo estas palavras de auto-conforto).

 

 

Balada do lado sem luz

 

O mundo da sombra, caverna escondida

Onde a luz da vida foi quase apagada

O mundo da sombra, região do escuro

Do coração duro, da alma abalada, abalada

 

Hoje eu canto a balada do lado sem luz

Subterrâneos gelados do eterno esperar

Pelo amor, pelo pão, pela libertação

Pela paz, pelo ar, pelo mar

Navegar, descobrir outro dia, outro sol

 

Hoje eu canto a balada do lado sem luz

A quem não foi permitido viver feliz e cantar

Como eu

Ouça aquele que vive do lado sem luz

O meu canto é a confirmação da promessa que diz

Que haverá esperança enquanto houver

Um canto mais feliz

 

Como eu gosto de cantar

Como eu prefiro cantar

Como eu costumo cantar

Como eu gosto de cantar

Quando não tão a balada, a balada, a balada

Do lado sem luz...

 

(Gilberto Gil)

 

 

*enquanto escrevia este post no último sábado à noite, a queda de energia provocada pela chuva interrompeu meu momento. Continuei o texto com papel e lápis e hoje resolvi publicá-lo.



Escrito por Guto às 21h01
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