Divagações no Dia do Psicólogo
Um dia a gente sente que não dá mais conta de seguir em frente sem ajuda. E não adianta mais ligar para aquele amigo (a quem se fala tudo) e se abrir com sinceridade e chorar todas as mágoas possíveis e imagináveis. Não vai resolver. É bom, dá uma força e fortalece momentaneamente, porque ficamos com o nosso ego massageado, tendo em vista que o amigo certamente nos colocará pra cima, concordará com tudo o que dissermos e nos dará total razão para nossas contrariedades. Mas não vai resolver.
Fato: o amigo a quem contamos tudo, perto de quem não temos vergonha de chorar nossas misérias e expor nossas fraquezas nos ama. Ele quer a nossa felicidade para que possa ser feliz também.
A percepção de que o desabafo feito ao amigo foi produtiva não durará por muito tempo, cairá por terra no momento em que a gente constatar que tudo continua igual, nossas atitudes as mesmas, nossa postura diante das dificuldades inalterada. Nosso sofrimento na mesma intensidade.
Mas existe uma pessoa que não nos ama, que não está nem aí pra o que fazemos da nossa vida, para as nossas escolhas, para o que teríamos como ideal de felicidade. Essa pessoa existe para nos ouvir, nos refletir, nos colocar diante de nós mesmos. Essa pessoa existe para colocar a luz no ponto certo. Para apontar para onde deve seguir o nosso olhar. Essa pessoa é um profissional. Um profissional psi.
Nosso amigo nos ama. O psicólogo não. Eis a grande diferença. O psicólogo existe para nos fazer sofrer, para nos fazer mexer nas feridas. Ele nos leva a nos abrirmos aos sofrimentos. E assim, aprendermos a lidar com eles. O psicólogo não nos ama e nós também não o amamos. Pelo menos ao iniciar o jogo. Depois todos os sentimentos estarão disponíveis e poderão aflorar no set mágico que se instalará na relação. E é bom que surjam, para que sejam reconhecidos todos os desejos e domados todos os fantasmas.
Que bom que os profissionais psi, existem. Muitos parabéns para eles no seu dia. Que bom saber que eles estão por aí, urdindo a vida nos consultórios da cidade.
Fresta
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
(Fernando Pessoa)
Escrito por Guto às 15h44
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Poema para seu domingo
Neste domingo queria poemas de amor. Poemas de amor e saudade. Quem poderia escolher se não uma mulher, afinal são elas as mestras na arte de falar do amor? Assim, trago a poetisa paulista Adelaide, ou Yde Schloenbach Blumenschein que ficou conhecida como a ‘poetisa do amor’. Ela nasceu em São Paulo no dia 26 de Maio de 1882 e escreveu seus primeiros versos aos 13 anos de idade. A partir daí esteve sempre ligada à literatura. Estudou várias línguas, inclusive esteve por um período estudando na Alemanha. Em 1936 criou, com amigos literatos, um clube de poesia em sua casa, local de reunião de poetas, denominado ‘Casa do Poeta Lampião de Gás’.
Mulher apaixonada, ela revolucionou costumes. Desquitou-se do marido numa época em que os casamentos tinham obrigatoriamente de durar para sempre. Sua independência, aliada a uma beleza singular, incomodava os familiares, que não aceitavam seu estilo de vida. Depois de separada ela passou a viver sozinha, ela fumava, ela bebia, ela recebia amigos para saraus em sua casa, ela escrevia sobre sentimentos que as mulheres não ousariam revelar, ela vivia. Isso, claro, em sua época perturbava os mais tradicionais e familiares e amigos tinham dificuldade de aceitar o seu modo de ser.
Sua poesia refletia seu modo de viver e sua independência. Ela falou de amor e deixou que seus sentimentos fluíssem sem medo. Se em algumas trovas o sentimento romântico surgia puro e singelo, em seus poemas e sonetos o amor foi exposto realisticamente, cheio de paixão e desejo. Ela descreveu sentimentos de amor sem medida, sem compromisso, o que deve ter realmente chocado os mais convencionais. Como nos versos do soneto ‘Vertigem’, que ela fala de uma relação de uma semana, de uma sensação apaixonada e sem nenhum compromisso com o compromisso: ‘Uma semana só... No meu caminho / um vislumbre de sol e de carinho: / uma sombra, talvez, na tua estrada... // Sete dias ardentes de Novembro... / Deves ter esquecido. E eu só me lembro / que nunca fui com tanto amor beijada!’.
Yde morreu em conseqüência de um ataque cardíaco, no dia 14 de março de 1963, numa madrugada, em sua casa. Ela teve uma vida longa e profícua. Foram 81 anos de vida vivida à sua maneira, sem se ligar a convenções e buscando somente ser feliz. E foi!
E, para este domingo, deixo seu poema de exaltação a um amor, que mais me agrada, entre os que conheço da poeta. A princípio inocente e romântico, ele vai num crescendo até atingir o clima apoteótico, erótico e sensual do amor que é desejo e sonho e ilusão de completude. Vejam:
Exaltação
Olhas nos olhos meus. E eu vejo neste instante
toda a terra subir a um céu que desconheço.
Olho nos olhos teus. E fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contem, esqueço.
Sorris... e, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas... ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E neste beijo grande
-- como uma flor que ao sol desabrocha e se espande -- ,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o seu beijo... o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
(Yde Schloenbach Blumenschein)
Escrito por Guto às 02h27
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Marcas de pele e alma
Olha a própria face refletida no espelho do banheiro e sente preguiça de se barbear. Sorri com tristeza e melancolia enquanto observa as marcas do tempo. Os dedos tocam de leve os pés de galinha que começam a surgir ao redor dos olhos, deslizam pelos sulcos na testa... ao redor da boca... nos lábios ainda ressecados. As mãos em concha transbordam a água gelada que sai da torneira. Fecha os olhos e leva as mãos ao rosto, sentindo a água fria na pele cansada.
Com o rosto molhado abre os olhos, mira-se no espelho e sorri. Os olhos adquirem um brilho antigo. O menino está ali, naqueles olhos vivos, prontos pra encarar um novo dia. O menino que foi, que de alguma forma ainda é. A saudade mais forte, a saudade de si mesmo, de um tempo em que se acreditava mais, se sonhava mais, se amava mais. De um tempo em que tudo tinha urgência, mas tudo era eternidade. A lembrança do tempo passado, do tempo que se faz presente, que chega junto com o claridade do sol da manhã...
Um outro tempo, uma outra vida, algum lugar, alguma aventura, alguma paisagem, alguém...
Pra Te Lembrar
O que é que eu vou fazer pra te esquecer
Sempre que já nem me lembro
Lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar
O que é que eu vou fazer pra te deixar
Sempre que eu apresso o passo
Passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar.
O que é que eu vou fazer pra te lembrar
Como tantos que eu conheço
E esqueço de amar
Em que espelho teu
Sou eu que vou estar
A te ver sorrindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar.
(Nei Lisboa)
Escrito por Guto às 11h57
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Por uma semana dourada
Queria aproveitar o inicio da semana para falar um pouquinho sobre os Jogos Olímpicos de 2008 que estão sendo realizados em Pequim. Não sou o que se poderia chamar de um esportista, mas acho bonitas algumas modalidades e acabo sempre dando uma olhada. Gosto também de ver a festa de abertura. Desta vez não vi, mas vi depois, gravadas, algumas imagens do que me pareceu ser uma belíssima cerimônia. O Presidente Lula estava lá, fazendo campanha para que o Brasil sedie uma olimpíada. Aquele Iatista que levou a bandeira do Brasil, o Robert Scheid (é assim que se escreve?) se mostrou emocionado com a honraria, quase tão emocionante como um pódio olímpico, segundo ele. Teve até sambadinha na apresentação dos atletas brasileiros. Bem Brasil, mesmo.
O nosso país, como sempre, tem uma participação discreta, devido à já tão falada falta de incentivo, de apoio aos profissionais, aquelas dificuldades todas de pais de terceiro mundo. Daí qualquer medalhinha que saia é uma festa só. A discrição, porém, desce pelo ralo nos raros momentos de glória e a gente vê a festa formada. A paixão pelo esporte é revelada em grandiosas demonstrações de afeto. As pessoas pulam, choram, riem. É uma loucura! Cezar Cielo ganha uma medalha de ouro, a única até este momento, e chora de alegria... (nós choramos junto com ele, obviamente). Diego, Dayane, Jade, Danielle, caem, derrapam, escorregam... e choram de tristeza (a gente chora também, claro).
Quero desejar uma semana bacana para o Brasil nos esportes todos. As meninas do futebol feminino acabaram de vencer a Alemanha. No volley de praia e de quadra e no futebol masculino também há possibilidade de medalhinhas douradas para o nosso país. Vamos torcer!
Percebo nesses dias de Jogos, que o esporte brasileiro e a vida do povo brasileiro são mais ou menos a mesma coisa. Seguem uma mesma lógica, uma busca, uma luta incessante, uma paixão exacerbada. E, assim como na vida, só conseguimos as coisas quando nos juntamos, nos mobilizamos e nos fortalecemos um com o outro. No esporte também acabamos sendo melhores nos chamados esportes coletivos. Nessa área costumamos mandar melhor. E nessas olimpíadas parece que não vai ser diferente.
Que essa seja uma semana de união e de resistência para nossos atletas olímpicos. E para todos nós.
Sentença
Convém nos
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas
E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los
(Eunice Arruda)
Escrito por Guto às 10h49
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E assim adormece esse homem
Meu pai gostava muito de Dorival Caymmi. Sempre me lembro dele cantando uma canção do baiano onde ele imitava a sua voz grossa: ‘… é doce morrer no mar / nas ondas verdes do mar. ’. Eu achava lindo, mas não demonstrava, e ria dele. Um dia lá em casa, estávamos um grupo de adolescentes na varanda espaçosa que dava para o quintal. Um garoto tocava o violão e a gente cantava com ele. Meu pai estava por ali. Mais tarde ele comentou que o menino estragou a canção do Caymmi, o que ele achou um sacrilégio. Eu então retruquei que ele estava enganado, já que meu amigo certamente nem sabia quem era Dorival Caymmi. Então ele me disse que ele havia cantado um trecho de O Mar, onde ele disse: ‘o mar quando quebra na praia... poluído, poluído...’. tratava-se de uma musiquinha da banda Blits, que não me recordo agora, mas que no final o Evandro Mesquita realmente brincava com a música de Caymmi, cujos versos diziam, ao contrario, que o mar quando quebrava na praia era bonito, bonito...
Dorival Caymmi morreu hoje, aos 94 anos de idade, em sua casa em Copacabana, no Rio de Janeiro. Uma perda grande para a música brasileira. O baiano, que escolheu o Rio para viver, compôs as mais belas canções sobre o mar, a praia, a Bahia. Suas paixões. Cantou o amor, sempre inspirado por sua musa, a mulher Stella, por quem se dizia tão apaixonado quanto nos primeiros anos de casamento e para quem dedicou seus versos de amor. Sempre me admirei ao vê-lo na TV em entrevistas. Sempre tão simples, tão direto, tão agradável. Falava bem e bonito. Tinha fama de preguiçoso, mas segundo sua neta, ele era apenas meio displicente e que, ao contrario, trabalhava muito. Mas gostava de alimentar essa coisa da preguiça, para não ser muito incomodado. Era, ainda segundo a neta, extremamente rigoroso em seu oficio. Trabalhava muito numa letra, numa melodia, até atingir a perfeição. Em “João Valentão” levou meses trabalhando, porque não encontrava os versos finais que o agradasse. Ele era assim, preciso, poético, genial em sua simplicidade. Criou uma família cheia de talento, seus filhos são todos talentosos e maravilhosos. Nana Caymmi tem uma voz que comove, é fantástica. Para ela, o Caymmi compôs o ‘Acalanto’, enquanto ninava a pequena em seus braços. Coisa de Deus, segundo Nana.
Conheci as canções praieiras e os sambas-canção de Dorival Caymmi primeiramente através de seus interpretes. Me recordo de Gal cantando lindamente: ‘Ô canoeiro bota a rede bota a rede no mar, ô canoeiro bota a rede no mar... ‘. E de Bethania, que me fazia chorar com a ‘Canção da Partida’: Minha jangada vai sair pro mar / vou trabalhar meu bem querer / se deus quiser quando eu voltar do mar / um peixe bom eu vou trazer / meus companheiros também vão voltar / e a deus do céu vamos agradecer...”.
O cantor estava triste devido à internação de sua mulher, que está hospitalizada há três meses. E triste partiu, neste sábado, de falência múltipla dos órgãos e em conseqüência de um câncer. Morreu dormindo o nosso artista amado, filho de Yemanjá,. Mas não choremos. Fiquemos com suas musicas, com sua serenidade, com sua beleza. Caymmi morreu, então, Viva Caymmi!
É Doce Morrer No Mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
A noite que ele não veio foi
Foi de tristeza prá mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi prá mim
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
Saveiro partiu de noite foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
Nas ondas verdes do mar, meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo
No colo de Iemanjá
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar...
(Dorival Caymmi)
Escrito por Guto às 18h35
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Janelas Abertas, o post
Houve um tempo em que não havia grade nas janelas. Hoje elas estão por aí, deixando os lares com um triste aspecto de prisão. Da janela não temos mais aquela visão ampla, porque as grades nos restringem o foco.
Nas casas da minha infância as janelas viviam escancaradas, convidando à vida, parecia haver uma conexão natural, casa-mundo. Eu amava ficar debruçado sobre o peitoril, olhando a paisagem, vendo as pessoas, assistindo a vida acontecer.
Minas é cercada por montanhas e, talvez por isso, as grandes janelas me faziam sentir menos a opressão dos montes. Mas nesses nossos dias a violência, a falta de segurança e o desrespeito pelo espaço do outro mudaram a nossa rotina. As casas tentam ser fortalezas. As pessoas se trancaram dentro de si mesmas, fechando suas janelas internas. Reproduzimos, por dentro, o que se vive no mundo exterior.
Fico me perguntando se haverá uma saída, se um dia teremos novamente nossas janelas de volta, pois hoje, trancados em casa e muitas vezes dentro de nós mesmos, ficamos olhando para a tela dos nossos microcomputadores, abrindo janelas virtuais, tal como a moça feia, no tempo das janelas abertas, via a banda passar...
*****
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
(Thiago de Mello em ‘Os Estatutos do Homem - Ato Institucional Permanente’)
Escrito por Guto às 15h11
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Naquela mesa está faltando ele...
“Quero desejar um dia feliz para todos os papais, esses seres que chegam a ser super-homens se não na vida, pelo menos para os seus rebentos; se não por toda a existência, pelo menos em algum momento dela (até que a maturidade revele a pessoa normal, de carne e osso que ele é...para sofrimento dos filhos). Quero desejar felicidades para todos os pais da minha família, para o meu pai que, se em outros tempos passava tanto tempo longe de casa, distante, numa vida paralela, numa vida turbulenta e aventureira, agora velhinho e doente passa seus dias inteiros quietinho em casa, sendo paparicado pela minha mãe e a ler textos seicho-no-ie, romances psicografados e a fazer palavras cruzadas. Voltou a ser totalmente nosso. Feliz dia dos pais. (14/08/05)”
********************
O textinho acima foi minha homenagem aos pais em post, neste blog, no Dia dos Pais de 2005, quando meu velho pai ainda estava vivo. Poxa, tão pouco tempo atrás e, depois de sua partida, já aconteceu tanta coisa em minha família. Fiquei imaginando como seria se ele estivesse aqui, ainda, e em como vivenciaria todos os acontecimentos, alegres ou tristes. Não tenho muito mais a dizer sobre esta data. Então, relembrando estas palavras antigas, renovo meu desejo de um dia feliz pra todos os pais.
Ludo Real
Que nobreza você tem
Que seus lábios são reais
Que seus olhos vão além
Que uma noite faz o bem
E nunca mais
Que salta de sonho em sonho
E não quebra telha
Que passa através do amor
E não se atrapalha
Que cruza o rio
E não se molha
(Chico Buarque e Vinicius Cantuaria)
Escrito por Guto às 02h02
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Sorrindo para a vida
A amiga retorna das férias e sua presença reluzente enche a sala. Seu bom dia é alto, estridente, feliz. FELIZ. Ao contar as aventuras vividas nos últimos 30 dias o seu sorriso largo logo se transforma em gostosas gargalhadas, que acabam por contagiar a todos que a ouvem. Eu, que sou uma pessoa pouco dada a gargalhadas, ameaço também um sorriso. Sorrir é contagiante. Não costumo rir se vejo uma comédia, sozinho. Mas basta vê-la com alguém que ri pra que eu também dê umas boas risadas. Sou contagiado.
O fato, reconhecido por terapeutas e especialistas em felicidade, é que sorrir é saudável, faz bem para a saúde, desconserta os mal-humorados, desarma os agressivos e torna a vida mais interessante. O riso caloroso aproxima as pessoas. Sorrir, sim, é o melhor remédio, como você vai perceber ao ler qualquer livro de auto-ajuda que traga receita de felicidade. Otimismo e alegria interior são as receitas milenares de bem viver.
Mas a vida não é um mar de rosas. Todo dia passamos por situações que nos desmotivam que nos afastam do outro que faz com que nos isolemos, nos voltemos para dentro de nós próprios: alguém que vai embora, o emprego que não conseguimos, o cano que nos deu aquele amigo, o medo do bandido, o estresse do transito, o time que perdeu, a ponte que partiu!
Trazemos o coração partido. Desolados, vamos tentando recuperar seus cacos e colar novamente, para que ele volte a bater com vigor e alegria. Alguns conseguem, alguns superam, alguns privilegiados têm o dom de se curar, de partir para frente, de exibir o mesmo sorriso de antes. Porque já percebi que os sorrisos vão mudando de acordo com as vivencias. O sorriso puro da criança, o curioso do jovem, o encantador da menina bonita, o sorriso de quem ainda não viveu as amarguras, os dilemas, os transtornos e as perdas da vida será sempre um outro sorriso. Depois, muda. É assim.
Sábios são os que conseguem levar a vida com alegria, sabem rir dos fatos da vida. Até das desgraças. Vivem, não têm vergonha de ser feliz. E essas pessoas são importantes. Elas nos contagiam. Nos fazem sorrir, rir, gargalhar.
A amiga volta de férias e traz com ela a sua alegria, que vai distribuindo por onde passa, sem nem ao menos perceber...
***********
O sorriso
creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso
Correr navegar morrer dentro daquele sorriso
(Eugénio de Andrade)
Desejo a todos um final de semana feliz, e com muitos sorrisos para todos. : )
Escrito por Guto às 11h08
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Poema para seu Domingo
Na última semana foi comemorado mais um ano de vida de Mário Quintana. O poeta gaúcho, de Alegrete, nasceu no dia 30 de julho de 1906 e é imortal, embora tenham sido vãs todas as suas tentativas de ingressar na Academia Brasileira de Letras. Ele chegou a dizer que a ABL era um lugar para políticos, para ministros. Mas para os verdadeiros amantes de poesia ele terá sempre comemorado o seu aniversário e viverá para sempre, imortalizado por sua obra grandiosa. Para mim Quintana é um dos maiores. Sempre citado em meu blog, fiquei me perguntando como ainda não o tinha homenageado em meus poemas de domingo. Ele, que sempre me tem inspirado nesses anos de “quase poema”. Faço isso hoje, em comemoração ao seu aniversário.
Jornalista, tradutor e cronista, Mario Quintana estreou na poesia em 1940, com o livro ‘Rua dos Cataventos’. Modernista da segunda geração, seus poemas são de uma beleza, de uma pureza, de uma singeleza que chegam a doer na alma. Mas são também muitas vezes irônicos, sarcásticos, bem humorados. Pro pessoal da Academia, que não o elegeu, respondeu com versos: “Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho / Eles passarão... / Eu passarinho!”.
Autor dos poemas breves, Quintana sabia manejar as palavras com rigor e beleza, preocupava-se com a forma, com a objetividade e a síntese. Falava do que vivia, do que sentia e observava da vida. Dizia que sua vida eram seus poemas, que tudo o que escrevia dizia de si mesmo, de sua experiência de vida. Seus versos eram sua confissão. Eram ele mesmo. Escrevia, portanto, por necessidade de escrever. Poesia era sua vida, suas emoções, seus sentimentos. Se sua vida eram seus poemas, nada melhor do que conhecer o Mario, lendo seus versos sobre o poema: ‘Um poema é como um gole d'água bebido no escuro. / Como um pobre animal palpitando ferido. / Como uma pequenina moeda de prata perdida / para sempre na floresta noturna. / Um poema sem outra angústia / que a sua misteriosa condição de poema. / Triste. / Solitário. / Único. / Ferido de mortal beleza’.
Muitos consideram Mario um poeta das coisas simples e talvez seja isso mesmo, tendo em vista que ele era uma pessoa simples, que gostava de estar com os amigos na noite, de beber, de fumar seu cigarrinho, de curtir a noite, a vida boemia, a intelectualidade local. Porém, nos últimos anos de vida, costumava caminhar solitário pelo centro velho de Porto Alegre. Ele morreu no dia 05 de maio de 1994, aos 87 anos de idade. Mas seus versos ficarão para sempre. Como este Soneto de ‘Rua dos Cataventos’, dedicado a um amigo:
VIII
É a mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!
Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...
Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos indecisos...
Mas para quê?... se não adianta mais!...
Pobres cartazes por aí afora
Que inda anunciam: -- ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora!...
(Mario Quintana)
Escrito por Guto às 01h36
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