A palavra é de prata?
Nos tempos em que eu freqüentava a Igreja, havia um hino que dizia algo mais ou menos assim: ‘palavra não é feita para dividir ninguém, palavra é uma ponte onde o amor vai e vem...’ Não sei se ainda se canta este hino nas missas, pois já faz um bom tempo que não freqüento mais as celebrações que seguia na infância e parte da adolescência. Eu ficava embevecido com as palavras do hino, mas acho que não entendia direito. Talvez ele se referisse às palavras escritas na bíblia, que os crentes costumam chamar de ‘a Palavra’. De qualquer forma, hoje posso dizer que a palavra pode dividir, pode separar, pode machucar. Já dizia Graciliano Ramos que ‘a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar, como ouro falso, a palavra foi feita para dizer’. Então falemos. Porém, com um certo cuidado pois já está provado que quem diz o que quer pode ouvir o que não quer como resposta.
Outro dia vi num programa de TV (Faustão?) um quadro onde as pessoas na rua eram chamadas a ‘botar a boca no trombone’ e falar alguma coisa para alguém. E os transeuntes se esbaldaram em recados engraçados, maldosos, indiscretos. Falar o que se pensa deve mesmo dar algum prazer. Mas a vida não é assim. Muitas vezes devemos calar para que não sejamos envolvidos numa confusão da qual não conseguiremos sair ilesos.
Sábias são as pessoas que conseguem ter o domínio da palavra. A sensibilidade para perceber a hora de falar e a hora de calar (e calar-se as vezes pode ser mais impactante do que qualquer coisa que se diga). O silencio pode dizer mais e ser mais devastador que uma palavra proferida. Infelizmente não tenho essa sabedoria. Muitas vezes falo coisas que não deveria e das quais me arrependo amargamente depois. Outras vezes, porém, não digo alguma coisa que, só depois de passado o momento, me vem à cabeça. E eu fico me torturando: por que não disse isso, por que não falei aquilo? Mas já passou, já foi, não dá pra falar mais nada. Penso que muitos já experimentaram essa sensação. É bem desagradável. Intolerável. Faz mal.
Hoje ouvi uma canção do Chico Buarque onde ele fala das palavras, das palavras tontas, das palavras duras, do ato de falar e sumir... o perder-se nas palavras. No post de outro dia, estava falando sobre o silêncio. Isso me levou ao oposto. Ao ato de usar a palavra, esta que é uma característica unicamente humana. Claro que os outros animais, ditos irracionais, também possuem voz e podem exprimir com ela a dor e o prazer. Mas apenas o ser humano é possuidor da palavra, que, como definiu o lingüista Saussure, é a representação do signo lingüístico composto de uma imagem sonora, que ele chamou de significante e de uma representação mental, ou seja, um significado. Neste jogo de palavras o homem vai tecendo as teias relacionais, a vida social. Mas esse jogo é falho, é reticente, se equivoca. É, voltando às idéias religiosas, uma torre de babel.
‘A palavra é prata e o silencio é ouro’. Ao outro post dei o nome de ‘o silencio é de ouro’. Foi uma constatação. Para falar da palavra preferi uma interrogação. Será ela realmente de prata, como diz o ditado oriental? Penso que ela também pode ser ouro. Se soubermos usá-la sempre em beneficio nosso e, principalmente, do outro. Falar na hora certa, com as palavras certas, com sabedoria, com delicadeza. Usá-las com firmeza, sem ser grosseiros, sem nos deixar envolver por elas, sem nos perder nelas, sem deixar que elas sejam tomadas pelas emoções e percam a razão de ser pronunciadas por nós. Nós temos o dom da palavra. E são Tantas Palavras. Devemos saber usá-las. É um aprendizado, constante, difícil, mas possível. Um aprendizado duro, ‘como dizer: perdi, perdi... ’.
Tantas Palavras
Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar
Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda seção ela virava uma atriz
Give me a kiss, darling
Play it again
Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou C’est fini
C’est fini
Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz
Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui
(Dominguinhos e Chico Buarque)
Escrito por Guto às 23h38
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Na estrada com Mick Jagger
Em 26 de julho de 1943, numa cidade próxima a Londres, na Inglaterra, nascia aquele que viria a se tornar o controverso pop star, vocalista da excelente e eterna banda de rock chamada The Rolling Stones, o ícone pop Mick Jagger
Apaixonado pela musica negra, pelo soul, que vinha de Chicago, o Mick cresceu em Londres, onde, ao lado do amigo de sempre Keith Richards, escreveu suas primeiras composições, enquanto bebia na fonte da música feita pelos negros, influenciado pelo Soul, o Jazz e o Rhytm’n’Blues, que ouvia nos Clubes de Jazz que assiduamente freqüentava com Richards.
Tomei contato com a música de Jagger ainda criança. Eu gostava de ouvir as melodias calmas, as baladas. “Angie” foi uma das primeiras músicas que experimentei tocar no violão. Uma prima me ensinou os acordes bem simplificados e eu passava horas tentando tocá-la. “A tears goes by”, “Time is on my side”, “Paint it black” e ”Lady Jane” também sempre me emocionaram. Na adolescência, em certo momento, me rendi ao Rock and Roll dos Stones e hits como “Start me Up”, “Brown Sugar”, “Simpathy for the Devil”, “Satisfaction” e “Jumpim’ Jack Flash”, só pra lembrar alguns que me vem à cabeça agora, passaram a fazer parte da minha vida.
Em 1995, quando os meninos vieram tocar no Brasil, eu tive uma vontade intensa e nostálgica de ir vê-los no Show. Não fui. Então comprei a revista BIZZ que trazia uma edição especial sobre os Stones e a turnê “Voodoo Lounge”. Me consolei, lendo sobre a banda, suas histórias, suas loucuras, seus sucessos. Foi uma forma de me sentir mais próximo deles.
Há mais de 40 anos na mídia, Mick Jagger continua jovem e cheio de carisma. Casou-se, teve muitos filhos, é avô, mas o mito permanece. Ele faz aniversário hoje. Está completando 65 anos. Vida longa ao nosso dinossauro do rock.
Certa vez a modelo brasileira Luciana Jimenez comentou que seu filho, o menino Lucas Jagger, lhe perguntou por que o pai era assim, estranhando o fato de ver o Mick no palco, rebolando, usando roupas exóticas, com o rosto maquiado e fazendo suas performances inusitadas. E Luciana disse ao filho que seu pai era assim porque ele era um artista, uma celebridade. É isso aí! Em tempos de celebridades instantâneas e sem nenhuma história, como temos visto no Brasil: mulheres melancia, melão, sei lá que outras frutas, ex-BBBs e outros mais, me pus a refletir sobre o ídolo que hoje comemora mais um ano de vida...
Celebridade, seu nome é Mick Jagger.
Paint It Black
I see a red door and I want it painted black
No colors anymore I want them to turn black
I see the girls walk by dressed in their summer clothes
I have to turn my head until my darkness goes
I see a line of cars and they're all painted black
With flowers and my love both never to come back
I see people turn their heads and quickly look away
Like a new born baby it just happens ev'ry day
I look inside myself and see my heart is black
I see my red door and it has been painted black
Maybe then I'll fade away and not have to face the facts
It's not easy facin' up when your whole world is black
No more will my green sea go turn a deeper blue
I could not foresee this thing happening to you
If I look hard enough into the settin' sun
My love will laugh with me before the mornin' comes
I see a red door and I want it painted black
No colors anymore I want them to turn black
I see the girls walk by dressed in their summer clothes
I have to turn my head until my darkness goes
Hmm, hmm, hmm,...
I wanna see it painted, painted black
Black as night, black as coal
I wanna see the sun blotted out from the sky
I wanna see it painted, painted, painted, painted black
Yeah!
Hmm, hmm, hmm,...
(Jagger e Richads)
Escrito por Guto às 20h22
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O silêncio é de ouro
Dias desse um amigo lia as manchetes na tela de seu PC e comentava sobre o sucesso da reprise da novela ‘Pantanal’, que surpreendia mais uma vez, assustando a Globo e as outras emissoras. Alguém comentou que o sucesso era por causa dos banhos de rio, das cenas de nudez, da exploração da sensualidade dos atores e atrizes. Meu amigo discordou e disse que, hoje em dia, as cenas são até puras para o padrão das novelas atuais. Segundo ele, o que faz com que a novela caia novamente nas graças dos telespectadores é a exuberância da natureza, as cores vivas do pantanal e as cenas longas, onde a câmera viaja pelos rios, voa com os pássaros, pára, fica observando sem pressa as belezas naturais do pantanal, o curso natural da vida, sem os gritos, as buzinas, as correrias, os barulhos provocados pelo mundo moderno.
Fiquei pensando no Silêncio. Os dicionários o definem como sendo ‘a falta de ruído’. Vendo pela primeira vez algumas cenas da novela fiquei pensando que o silêncio é mais sutil. O silencio da natureza, por exemplo, é um silêncio cheio de agradáveis sons, que comovem, que descansam, que fazem bem ao espírito.
Hoje em dia, as pessoas não gostam do silêncio. O silêncio as perturba. O silencio as convida a uma viagem para dentro de si mesmas. Ninguém está muito afim de se haver consigo mesmo. Por isso, hoje a TV está repleta de barulho, as novelas são uma poluição sonora e quanto mais se grita, mais se briga, mais se fabrica efeitos especiais, mais as pessoas se apegam, aguardam, acompanham, assistem. Entorpecidas em meio a tanta balburdia as pessoas não precisam refletir, não esboçam reação, não fazem nada por si mesmas.
Na ultima edição do BBB, lembro-me que eu ficava encantado quando as câmeras deixavam a galera do agito e da euforia e repousavam suas lentes em Gyselle. Era interessante ver a cena parada, o rosto de Gy e seus olhos perscrutando o vazio. O que pensava, como se sentia, que desejos tinha? Seu silencia era tão desconcertante para os outros brothers. Era tão intensamente provocante para nós, que acompanhávamos o seu dia, as suas madrugadas. Era tão instigante. Convidava à reflexão. Ao contrario dos outros confinados, que não nos levavam a pensar em nada, a não ser em rir de suas frases sem sentido, seus micos, suas idiotices.
Dercy Gonçalves faleceu e para atender ao seu desejo teve um velório em que se buscava uma alegria. Seus filmes em preto e branco mostravam uma jovem eufórica, brincalhona, falastrona. Suas aparições na TV sempre exuberantes, suas aparições espalhafatosas na mídia... Sua vida foi cheia de agitos, de gritos, de aplausos. E assim ela quis que fosse a sua partida. Me disseram que no seu enterro havia até uma escola de samba. Tocaram samba para Dercy. Mas a grande verdade, a grande certeza e o grande sentido de viver é essa volta. Não tem jeito, Dercy, foram mais de 100 anos de vida ativa, mas no final o que fica é apenas e absolutamente um grande silencio.
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Os ruídos da cidade
Não, não tenhas escrúpulo: se, alta noite, meteres uma bala no ouvido, os vizinhos pensarão – polidamente – que foi apenas um pneu que estourou.(Mário Quintana em Na Volta de Esquina)
Escrito por Guto às 23h36
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Poema para seu Domingo
A poetisa carioca Gilka da Costa de Melo Machado ou Gilka Machado é minha escolhida para este domingo. Mais uma vez uma mulher, e que mulher! Ela nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de março de 1893 e lá viveu por toda a vida. Ainda menina, incentivada por sua mãe, uma atriz de teatro, começou a escrever seus primeiros versos e a se interessar por literatura. Em 1915 publicou seus primeiros poemas, num livro chamado “Cristais Partidos” e não parou mais. Em 1933, a revista “O Malho” realizou um concurso que elegeu Gilka como a maior poetisa do Brasil. Em 1979, um ano antes de sua morte, a Academia Brasileira de Letras, em reconhecimento por sua importante obra poética lhe ofereceu o premio Machado de Assis.
Gilka se dizia uma mulher ‘nascida para o pecado’, talvez numa tentativa de brincar com aqueles que a consideravam imoral, devido a sua ousadia, aos seus versos considerados demasiadamente eróticos e livres para a sua época. Em seu livro “Velha Poesia” ela fala no poema SAUDADE de um amor perdido mas que se inscreveu dentro dela mesma e que é lindo: “De quem é esta saudade / que meus silêncios invade, / que de tão longe me vem? // De quem é esta saudade, / de quem? // Aquelas mãos só carícias, / Aqueles olhos de apelo, / aqueles lábios-desejo... // E estes dedos engelhados, / e este olhar de vã procura, / e esta boca sem um beijo... / / De quem é esta saudade / que sinto quando me vejo?”
Sua vasta obra trás títulos como ‘Estados de Alma’, ‘Mulher Nua’, ‘Carne e Alma’, ‘Meu glorioso pecado’, ‘Sublimação’, entre outros. Sua poesia visceral e feminina, toca, comove, machuca. É a palavra de uma mulher corajosa que não tinha medo de se colocar e de expressar com liberdade seus sentimentos e seus pensamentos.
A poetisa carioca Gilka Machado, inicialmente Simbolista, é considerada hoje por muitos como a precursora do movimento modernista brasileiro. Ela faleceu no dia 11 de dezembro de 1980, pouco tempo depois de recusar o convite para se candidatar a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
O poema escolhido por mim, fala da solidão a dois, do engano de querer ‘fazer um’ de dois. Muito bom e muito atual:
Solidão
Sou tão tu, és tão eu que te parece a solidão a minha companhia; minha voz é tua idéia em melodia; meu gesto teu desejo em atitude; se o amor não nos tornou a ambos perfeitos, adquiriste todos meus defeitos, cheguei a assimilar tua virtude.
Sou tão tu, és tão eu que, inutilmente, procuro uma aparência diferente para atrair teu ausente olhar: Teus olhos me olham para além de minha forma e estão exaustos de minha alma contemplar.
Sou tão tu, és tão eu, de tal maneira do afeto o mimetismo os iguala, que é uma inutilidade nossa fala, e em vão, tentamos a conversação: ouvimos mutuamente o pensamento, não nos restando, para tanto tédio, o supremo remédio da traição. Sou tão tu, és tão eu, sinto-te preso a mim como a alma à carne, a idéia à mente, preso, mas numa ausência de desprezo.
Meus sentidos já te sabem de cor, e, embora anseie algo de diferente, do que tu, meu Amor, nada creio melhor.
Sou tão tu, És tão eu, somos iguais de tal maneira que já nem percebes quando vens para mim, quando de mim te vais.
Nossas horas de união se fizeram tão tristes que a elas me vem a sensação do nada, que a elas, às vezes, angustiada, quisera ser por ti brutalmente espancada; quisera te ferir para saber se existes.
Oh tortura do sonho realizado! Assim juntos estamos tão sozinhos como se nunca nos houvéssemos encontrado.
(Gilka Machado)
Escrito por Guto às 01h32
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Sou o mundo, sou Minas Gerais
Ser mineiro é uma coisa bela, mas estranha... ‘mineiro vende queijos e possui bancos’ disse alguém. Mineiro fala trem, quando não lembra o nome de algo. Isso é bacana. Costuma não usar os esses para pluralizar suas frases. Isso não é legal. Vivemos entre montanhas e elas às vezes nos oprimem. Dizem que o mineiro é desconfiado, mas eu não vejo assim. Acho que o mineiro é mais introspectivo e principalmente acho que o mineiro gosta de pensar, de ficar cismando, contemplando, pesquisando. E, modéstia às favas, o mineiro é doce, é bonito, é solidário. Não só no câncer, como já disse alguém. Mineiro quando gosta, gosta de verdade, abre a casa e o coração. E o mineiro tem também uma simplicidade. E tem uma sofisticação natural. Por isso é horrível um mineiro metido a besta. Não dá certo. É constrangedor.
Estou falando do mineiro e de como eu o vejo, porque hoje é o dia de Minas. Eu, que aqui nasci e fui criado. Neste dia fiquei pensando em Minas, em minha terrinha mineira, em minha rua... "sou apenas uma rua / na cidadezinha de Minas, / humilde caminho da América”. -- isso disse Drummond; isso, digo eu, neste momento. Minas e seu ouro perdido, Minas e sua gente, Minas e seus poetas, seus trovadores, seus músicos em serenata. Minas das lutas, das Inconfidências, dos sonhos e dos belos horizontes. Minas é resistência, como disse o poeta: "Minas permanece básica, de pedra, permanece afásica, de medo, permanece Minas. Com seus livros bíblicos, com seus hinos bélicos, com seus anjos belos, com seus cantos líricos. Minas permanece Minas, com seu tempo gélido, com seu verso cálido, com seu terço tétrico, com seu sonho vário. Minas permanece tátil, com seus muros tristes, com seus montes gastos, com seus trilhos falsos, com seu rosto espúrio. Minas permanece impávida, silente, permanece lírica. Minas permanece Minas, na corrente inconfidente e tácita. Minas se oferece e se cala. Minas se enternece e fala e como bala, permanece”
Quis hoje homenagear o meu Estado, que é tão bonito e que muitas vezes não percebemos, não damos a ele o valor que ele tem. Costumo dizer que Minas é um Estado... de espírito. E já que estou falando de Minas, tenho este poema do Olavo Drummond, que me foi enviado por um amigo certa vez, quando deixou Minas para estudar em outro estado e que eu acho bem coisa de mineiro. Coisa de amor. Amor de mineiro, amor de índio, amor... fala de um desejo e de uma saudade que só quem deixa seu torrão natal pode entender...
Eu quero Maria
Comer melancia
Das Minas Gerais
Não queres champagne
da França provindo
servido tinindo em gelo e cristais?
Nada disso me avia,
Eu quero, Maria
Comer melancia
Das Minas Gerais.
Tu queres cerejas
do Japão trazidas
em louças servidas
por gueixas fatais?
Nada disso, guria
Eu quero, Maria
Comer melancias
Das Minas Gerais.
Vou buscar, exigente,
O teu prato excelente.
Pra louvor do teu dia
Terás melancia
De Minas Gerais
Buscá-las, Maria
Não aceito jamais
A minha agonia
É comer melancia
Nas Minas Gerais.
(Olavo Drummond)
Escrito por Guto às 20h20
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Prestando atenção em cores...
‘Então eu vi as cores do mundo’, disse um dia o menino Miguilim, ao observar, com os óculos que o forasteiro lhe colocava nos olhos, a paisagem do sitio onde vivia, no sertão das gerais. A exuberância encantou o menino. As cores nítidas antes não existiam para ele. Certa vez, eu estava observando um mosaico, numa exposição. Ele era bem colorido, feito com pedrinhas coloridas que mudavam de cor ou de tonalidade, dependendo do ângulo com que a gente olhava para elas. As cores no mundo também são assim, elas dependem de nosso olhar para existirem. E dependem, sobretudo, do nosso estado de ânimo, de nosso espírito, nosso preparo e nossa disposição para serem captadas. Miguelim, com sua alma pura de menino precisava de óculos; nós, pessoas grandes, precisamos de vontade.
Sempre gostei de cores. Às vezes quando estou muito pilhado, ou muito preocupado com questões da minha vida, gosto de fechar os olhos e visualizar a cor azul. Fico respirando lentamente, procurando não pensar em nada, só imaginando esta cor que me acalma. Pode parecer bobagem, mas eu juro que funciona.
Às vezes, tal como um gótico, ou tendo sido tomado por um sentimento dark, vejo tudo encoberto por uma nuvem cinzenta. Nesses dias de inverno interior, as cores perdem seu brilho, o meu mundo então se torna obscuro, triste e eu vejo uma estranha beleza nele, em sua melancolia, em sua opacidade; mas em outras vezes, no entanto, o meu mundo ganha um brilho especial e eu sinto, nesses dias, a força da claridade e da luz. Eu me embriago em meio a tantas cores. Será assim também com as outras pessoas? Eu me pergunto.
Dizem que os homens, em sua maioria, sonham em preto e branco, já as mulheres sonham colorido. Será verdade? Taí uma questão que me deixa instigado. Acho que não tem como saber. Adélia Prado, que sonha colorido, em seu poema UM SONHO descreveu assim seu contato com uma cor:
“Eu tive um sonho esta noite que não quero esquecer, por isso o escrevo tal qual se deu: era que me arrumava pra uma festa onde eu ia falar. O meu cabelo refletia vermelhos, o meu vestido era num tom de azul, cheio de panos, lindo, o meu corpo era jovem, as minhas pernas gostavam do contato da seda. Falava-se, ria-se, preparava-se. Todo movimento era de espera e aguardos, sendo que depois de vestida, vesti por cima um casaco e colhi do próprio sonho, pois de parte alguma eu a vira brotar, uma sempre-viva amarela, que me encantou por seu miolo azul, um azul de céu limpo sem as reverberações, de um azul sem o “z”, que o “z” nesta palavra tisna. Não digo azul, digo blue, a idéia exata de sua maciez. Pus a flor no casaco que só para isso existiu, assim como um sonho inteiro. Eu conheci uma cor. Agora, sei. “
Sonhando colorido ou em preto e branco, as cores têm inspirado poetas e artistas desde sempre, e isto já é um motivo pra eu falar delas. Eu acredito nas cores, na força que elas têm e no que podem trazer de bom para a nossa vida.
Rai das Cores
Para a folha: verde Para o céu: azul Para a rosa: rosa Para o mar: azul
Para a cinza: cinza Para a areia: ouro Para a terra: pardo Para a terra: azul
Para a chuva: prata Para o sol: laranja Para o carro: negro Para a pluma: azul
Para a nuvem: branco Para a duna: branco Para a espuma: branco Para o ar: azul
Quais são as cores que são suas cores de predileção?
Para o bicho: verde Para o bicho: branco Para o bicho: pardo Para o homem: azul
Para o homem: negro Para o homem: rosa Para o homem: ouro Para o anjo: azul
Para a folha: rubro Para a rosa: palha Para o ocaso: verde Para o mar: cinzento
Para o fogo: azul Para o fumo: azul Para a pedra: azul Para tudo: azul
Quais são as cores que são suas cores de predileção?
(Caetano Veloso )
A semana está terminando fria e cinzenta, mas eu espero que no final de semana esteja tudo azul para todos.
Escrito por Guto às 15h58
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Poema para seu Domingo
Para este domingo, trago Eunice de Carvalho Arruda, ou apenas Eunice Arruda, como ficou conhecida esta poeta que me encanta e que, talvez mobilizado pela minha recente visita a casa paterna, tenho lido nos últimos dias. Ela nasceu em algum dia do ano de 1939, na cidade paulista de Santa Rita do Passa Quatro. Fez seus estudos em São Paulo, onde se formou em Comunicação e Semiótica, pela PUC. Autora bastante premiada, ela participa de diversos projetos culturais e oficinas literárias, tendo recebido inclusive o premio de Mérito Cultural por sua atuação em projetos promovidos pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Seus poemas, quase sempre curtos, têm algo de nostalgia e de rebeldia, de tristeza quase convulsiva. Em “Retorno” ela escreve: “Esse turbilhão que grita / agita / é gente /De coração / de mais tristeza – quem sabe – do que / nós // E a gente não ouve / não quer ouvir / Quer esquecer / quer não pensar // a gente envelhece muito quando volta”.
Sua poesia cheia de lirismo, fala de momentos, de amor, de busca, de observações do cotidiano, de sentimentos que são expostos sem receio, sem rodeios. Seus versos brancos, livres, subjetivos e corretos vão descrevendo o que se passa dentro do coração de poeta, que vê com lirismo o correr da vida. Costumo dizer que alguns poetas têm uma capacidade personalíssima de captar instantes, breves e fugidios, de sintetizar fatos e/ou sentimentos e colocá-los no papel de uma forma única, clara, objetiva, verdadeira. Num de seus poemas, falando sobre o oficio do poeta ela escreveu: “É missão / de quem escreve / apenas eternizar o que foi breve”. Eunice Arruda é assim.
Escolhi para hoje um poema que revela uma certa melancolia, uma dose de angustia, uma dor de viver, uma amargura e alguma falta: falta de felicidade, falta de fé, falta de esperança, que reflete bem o estado de alma de um eu lírico que gostaria de retornar a um tempo de alegria. Mas é domingo...
Deus e o Domingo
Eu ia ser feliz
domingo
naquele tempo bastava pouco
Não sabia que no
domingo
é fácil chover
e muito difícil viver
Ah, eu ia ser feliz
mas
domingo Deus descansa
e a gente sofre mais
(Eunice Arruda)
Escrito por Guto às 01h44
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De volta para o presente
Volto renovado a BH. Volto porque tenho que estar aqui e descubro que é bom estar aqui. Mas também foi bom estar em casa, a velha casa da meninice, com a família, e poder rever os lugares que brinquei na infância, que andei na juventude, que me diverti, me descobri e que aprendi.
A gente precisa, de vez em quando, rever essas paragens, rever as pessoas, rememorar os acontecimentos de tempos idos. É como ter um reencontro consigo mesmo, com o que foi no inicio, com o que nos levou a ser o que somos hoje, um contato com o que nos tornamos e no que nos transformamos.
Eu sempre vou acreditar que existe dentro de cada um o desejo de um encontro, de um encontro profundo consigo mesmo. E que neste encontro, necessário e possível, todo e qualquer ser humano possa ser verdadeiramente ele mesmo e onde o que ele expressa, comunica, revela ao outro possa ser compreendido e levado em consideração pelo seu semelhante. Tenho a forte sensação de que esse encontro se dá comigo, sempre que volto aos tempos de minha infância, aos lugares, às pessoas.
Por isso preciso desse tempo e ao mesmo tempo em que me sinto preso a um passado perdido, me sinto gratificado por poder ter em mim esse passado. Essa historia vivida e inscrita dentro de mim com intensidade. História que me pertence a mim unicamente, que é totalmente minha na medida em que sou eu quem a interpreto e sou eu que a trago comigo.
O presente? O presente é a minha vida vivida. O presente é a forma como vai se inscrevendo em mim o que vivi. O presente não existe, como disse Bandeira. Sim, ele vai se fazendo a cada dia e só depois ao poder ser contado nos damos conta dele. Depois. Depois que tudo passa, como escreveu Cassiano Ricado, o poeta, nos versos de “Depois de Tudo”: Mas tudo passou tão depressa. / Não consigo dormir agora. / Nunca o silêncio gritou tanto / Nas ruas da minha memória. / Como agarrar líquido o tempo / Que pelos vãos dos dedos flui? / Meu coração é hoje um pássaro / Pousado na árvore que eu fui.
O presente sou eu aqui, sentado em frente ao meu computador, no meu quarto, no meio da noite, ouvindo uma musica, teclando palavras que tentam de alguma forma falar de sentimentos, de nostalgia, de beleza, de vida. O presente ainda não me pertence. Ele está se fazendo, junto com este post.
Volto renovado a BH. Confiante, esperançoso, aliviado e um pouquinho triste.
Razões
O menino sabe do tempo às avessas
porque viver é repetido
é sempre é mesmo é recompor instantes
de outros que vêm vindo
virando momentos passados.
No tempo das coisas
ele constrói um tempo de ontens
e por somenos vai refazendo amanhã
sem nunca se aperceber.
Mas nem por isso a vida se repete
e o futuro suspira (entende e sente)
-- pressente que viver é ter saudades.
(Max de Figueiredo Portes)
Escrito por Guto às 01h24
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