Nome: Carlos Augusto
Apelido: Guto
Cidade: Belo Horizonte
Nasc.: 14 de fevereiro

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QUASE POEMA
 


Por ser de lá...

Saí de casa tarde demais, eu acho. Dizem que esse negócio de ficar indefinidamente na casa dos pais é coisa de Brasil. Já me disseram ou li em algum lugar que em outras culturas não é assim. Os jovens norte-americanos, por exemplo, são incentivados a sair de casa cedo e buscar uma vida própria. De minha parte o fato de ter vivido até muito tarde debaixo das asas de minha mãe e da proteção (inclusive financeira) do meu pai, não foram muito positivas para mim e para a formação da minha personalidade. Mas, de uma maneira geral e, aos trancos e barrancos fui conseguindo me ajeitar e encontrar o meu espaço nesse mundo louco onde dependência, carência e timidez são palavras que devem ser abolidas dos nossos dicionários internos.

Penso que o mais difícil para mim desde que sai de casa foi conseguir fazer com que a minha casa saísse de dentro de mim. Ainda hoje essa falta, ainda hoje essa necessidade, ainda hoje essa saudade. Um sentimento atávico que me faz ter necessidade de voltar sempre e sempre e sempre.

 

Da última vez que estive lá, disse pra minha mãe: -- agora vou ficar um longo tempo sem pintar por aqui...

 

Mas essa ligação inexplicável, indescritível, imperdoável, faz com que eu novamente volte os olhos para a direção da estrada...

 

Onde está a minha mala com rodinhas?

 

***********

 

Lamento Sertanejo

Por ser de lá
do Sertão, lá do Serrado
lá do interior do mato
da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
eu quase não tenho amigos
eu quase que não consigo
ficar na cidade sem viver contrariado.
 
Por ser de lá
na certa por isso mesmo
não gosto de cama mole
não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
eu quase não sei de nada
sou com rês desgarrada
nessa multidão boiada caminhando a esmo.
 

(Gilberto Gil)



Escrito por Guto às 20h37
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Acende a fogueira do meu coração

Naquela noite ele vestiu seu terno branco, pegou palha de milho, dobrou cuidadosamente e ajeitou no bolso do paletó. Tirou do fundo do guarda-roupa o chapéu de palha, passou um perfuminho e saiu sorridente. Era o noivo indo para a cerimônia. 
 

A festa estava animada. Muita bandeirinha, muitos fogos, bebidas, comidinhas típicas da roça. Começa a encenação. A polícia leva o noivo até o local do casamento. A noiva grávida faz ares de donzela. A audiência sorri, depois ri mais alto, depois dá muitas gargalhadas.

 

Após o conturbado casamento, começa o grande baile. Alguns passeiam pelas barracas, outros se sentam para tomar uma bebidinha quente. Ao redor da fogueira, as moças jogam pedidos para o santo e tiram a sorte para ver com quem vão casar.

 

É um momento feliz, coisas de um outro tempo são revividas e vêm se tornar presentes na alma do rapaz que acabou de se casar com alguém que jamais terá em sua vida real. Olha pra noiva. Olha as pessoas se divertindo. Os casais namorando. De repente sente uma tristeza indefinida. Uma saudade de alguma coisa que ficou num passado distante, uma saudade ancestral, mas que de alguma forma o comove.

 

Foi no tempo de escola que isso aconteceu. E ele me contou que estava emocionado. E a gente riu enquanto tomava caldo de feijão.  Ríamos daquela grande encenação, daquelas pessoas com suas vestimentas inusitadas. A tradição é realmente de uma força extraordinária. Era o segundo colegial. Era a adolescência e suas descobertas. Eram os amores não correspondidos. Eram os jogos e as brincadeiras. Era a vontade de viver. Meu amigo se casava com a menina que gostava. Eu olhava tudo com curiosidade. Ele buscava com os olhos onde encontrar sua esposa de mentirinha. Fazia muito frio. Riamos de tudo e de todos. Mas, entre risadas e piadas, tínhamos os olhos úmidos. Os olhos de meu amigo brilhavam muito, seu rosto estava rubro, e me lembro que ele tinha indubitavelmente os olhos cheios de lágrimas, naquele momento.

 

Talvez seja coisa de quem veio do interior, ou talvez seja algo maior, cravado na alma, no inconsciente coletivo, mas até hoje as festas juninas me comovem...

 

 

Chegou a hora da Fogueira

 

Chegou a hora da fogueira

É noite de São João...

O céu fica todo iluminado

Fica o céu todo estrelado

Pintadinho de balão...

 

Pensando no caboclo a noite inteira

Também fica uma fogueira

Dentro do meu coração...

 

Quando eu era pequenino

De pé no chão

Eu cortava papel fino

Pra fazer balão...

E o balão ia subindo

Para o azul da imensidão...

 

Hoje em dia o meu destino

Não vive em paz

O balão de papel fino

Já não sobe mais...

O balão da ilusão...

Levou pedra e foi ao chão...

 

(Lamartine Babo)



Escrito por Guto às 20h38
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Os dias tristes de outono

Tem certos dias em que realmente não temos muita esperança. Dias cinzas. Dias mortos. Nada parece bem e nada parece dar certo. Olhamos para o nosso espelho e vemos alguém desanimado, desolado, cinzento como o dia (mesmo que faça sol).

De onde vem essa angustia, esse desencanto, essa falta de motivos? O mundo não está colaborando. As exigências, as cobranças, os objetivos inalcançáveis: tudo é tão difícil. A gente quer tudo (mesmo que pareça ser modesto). O carro, a casa, a viagem, o amor correspondido com igual ou maior intensidade. Mas o carrão não vem, a casa mora nos sonhos mais distantes, o amor é sozinho ou pequeno, medíocre, se é que se pode existir um amor assim.

 

E nestes dias assim, sombrios, escuros, o que se pode sentir que não seja torto e sem perspectiva? De repente não se deseja mais. Um atroz sentimento de derrota invade por dentro, domina a alma. A gente percebe, então, muito claramente, em meio a toda essa escuridão, que perdeu. Não tem mais como ir em frente. O melhor é fechar os olhos e esperar o tempo passar...

 

Porque, obviamente, vai passar. De um jeito ou de outro temos que abrir os olhos e seguir em frente em busca da luz no final do túnel. Sim, tudo passa sobre a terra.

 

A gente segura na mão de... Caio Fernando Abreu. E vai...

 

 

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como "estou contente outra vez”.

Caio Fernando Abreu”.



Escrito por Guto às 23h49
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Poema para seu Domingo

Se vivo estivesse, o poeta lusitano Fernando Pessoa estaria completando 120 anos. Aproveitando as comemorações e homenagens que a ele foram prestadas na semana que passou, deixo um pouquinho do poeta magistral no meu post de domingo.

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 13 de junho de 1888. Com apenas 5 anos de idade perdeu o pai e, no ano seguinte, um irmão. Pouco tempo depois a mãe casou-se novamente e, como o marido era Cônsul de Portugal trabalhando numa colônia britânica de nome Durban, na África do Sul, a família teve que deixar Lisboa. O pequeno Pessoa então cresceu em contato intimo e profundo com a língua inglesa e com a literatura de Shakespeare, Poe, Byron, e outros tantos grandes escritores ingleses. Era uma criança tímida, de temperamento reservado e introspectivo. Viveu na colônia inglesa até os 17 anos, quando resolveu voltar a Portugal, a fim de estudar Letras. Aluno brilhante e jovem inteligente, ainda assim ele acabou não terminando o Curso, iniciado em Lisboa, preferindo estudar por conta própria.

 

Seus primeiros artigos e poemas foram publicados na revista “Águia” por volta de 1912 e mais tarde veio a colaborar na importante revista literária Orpheu que trazia os mais destacados poetas do modernismo português. Seu primeiro livro, porém, o “Mensagem”, só seria publicado em 1934, um ano antes de sua morte. Foi o único de seus livros que o poeta viu impresso. Felizmente, ele havia deixado uma vasta obra a ser descoberta e trazida a público. Ainda hoje, comenta-se que há um espolio poético enorme a ser desvendado, descoberto e por publicar.

 

Poeta dos heterônimos, Fernando Pessoa, se expressava através de personagens que, segundo ele, tinham realmente vida, biografia, história e idéias próprias. Esses personagens, esses Outros, sempre instigaram e deram uma espécie de mistério à vida do poeta. Ele atribuía a esses poetas múltiplos uma disposição anímica que trazia consigo desde a infância. Foram vários heterônimos (não eram pseudônimos, como ele sempre enfatizou, já que tinham vida própria), mas os mais constantes e estáveis foram Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos, Ricardo Reis, o mestre, e Álvaro de Campos, o sentimental. Neste mundo imaginário, o Poeta Fernando Pessoa, ele mesmo, transita, com seus mistérios, suas angustias, suas insatisfações e sua solidão.

 

Ele buscava respostas no esoterismo, no ocultismo, mas não conseguiu se realizar nesta vida. Suas perguntas, seu vicio incontrolável de pensar, de buscar respostas para questões muito humanas, como a idéia do mistério da morte, o levou por caminhos tortuosos. Sempre solitário, o poeta não se casou, não teve uma vida longa. Bebia alem da conta e morreu jovem em conseqüência de uma cirrose hepática, no dia 30 de novembro de 1935, num hospital de Lisboa.

 

Em seu poema “Aniversário” ele diz: ‘No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, / E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer’.  O que pensaria o poeta se imaginasse, quando fez estes versos, que 120 anos após seu nascimento ainda se comemoraria o dia de seus anos, ele, que morreu jovem e que tanto se questionou sobre a morte?

 

Vamos ler Fernando Pessoa sempre. A obra toda vale muito a pena. Escolhi hoje um poema que acho magnífico e que revela o poeta apaixonado entre o amor e a razão. Espero que agrade a todos.

 

Eros e Psique                                          

 

                                ... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no  Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.                                  

                                             DO RITUAL DO GRAU DE MESTRE DO ÁTRIO NA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL

 

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino --
Ela dormindo encantada
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

(Fernando Pessoa)



Escrito por Guto às 01h21
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O Amor Reluz

Orion

 

 

A primeira namorada, tão alta

que o beijo não a alcançava,

o pescoço não a alcançava,

nem mesmo a voz a alcançava.

Eram quilômetros de silêncio.

 

Luzia na janela do sobradão.

 

(C. D. de Andrade)

  

Luzia, um lindo nome que vem de luz. Do verbo luzir, iluminar, brilhar. Luzia, no poema de Drummond pode ser pensada também como se uma pessoa brilhasse na janela: Luzia (luzia) na janela do sobradão’.

Ontem foi o dia dos namorados. Então me lembrei deste poemeto de Drummond, que fala da primeira namorada, aquela coisa tão inatingível, tão inesquecível. Vai como uma homenagem a todos os que amam, aos que tem alguém, aos que não tem, e aos que estão felizes sozinhos. Para todos aqueles para quem brilha a luz do amor.

 

Hoje é o dia de Santo Antonio, o santo dos que querem casar. Que ninguém desista. Tem amor pra todo mundo. Bom final de semana a todos.



Escrito por Guto às 16h15
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Entre a razão e a loucura

A semana está só começando e nada melhor que começar falando sobre um filme. E vou falar do filme de Ryan Murphy, Running with scissors, ou Correndo com Tesouras. Nele, Augusten Burroughs se pergunta logo no inicio por onde deve começar a contar sua história, a história de como ele foi abandonado por sua mãe e de como a abandonou depois. Fica claro que se trata de uma história de abandono. E o filme me ganha de cara. Ele me havia sido indicado por uma amiga. Ela me dissera: Vê esse filme, que ninguém gostou, mas eu gostei e sei que você também vai gostar. E ela acertou em cheio. Eu vi e nunca mais esqueci.

Baseado na autobiografia de Augusten, ele narra a vida de uma criança que é filha única de um pai alcoólatra e de uma mãe frustrada e enlouquecida, que deseja mais do que tudo alcançar o sucesso como poeta. Seu amor pelo filho é imenso e recíproco. O pequeno Augusten se espelha na figura materna e deseja brilhar e ser famoso também. Seu drama tem inicio quando a mãe se separa do marido, muda-se para um hotel e o entrega aos cuidados de seu psicoterapeuta, uma figura excêntrica que o adota. Ele passa então a conviver naquela família desestruturada e estranha. Ali, ele começa a escrever seu diário, a esperar pela volta da mãe e a crescer em um ambiente sui generis, de vidas fragmentadas e sem referencial.

 

É um filme para quem se interessa por pessoas esquisitas, depressivas, surreais. O elenco é perfeito. Anette Benning (maravilhosa no papel da mãe), Alec Baldwin e Joseph Cross formam a família infeliz, com beleza e acido humor. Joseph Fieenes e Gwineth Paltrow (o casal de “Shakespeare Apaixonado”) também estão no filme. Fieenes, excelente como o outro paciente maluco e Paltrow num papel menor, mas instigante.  O visual é muito bonito: o tom, as cores, os cenários, o estilo surrealista, exagerado. As emoções, ah, essas afloram com uma força excessiva, embalada por uma trilha sonora envolvente, que atrai e compactua com os acontecimentos.

 

A meu ver, para além do abandono, o foco central do filme está na falta de limite, de chão, de regras básicas de convivência e de segurança. Aos 15 anos, o jovem Augusten deixa isso claro em seu diário, ao sonhar com uma vida banal, normal, padronizada. Ele diz: “quero que tudo volte a ser como antes, quando eu tinha uma família que tentava se amar... Quero uma hora certa para estar em casa, quero ficar de castigo por transar com um esquizofrênico de 35 anos de idade. Quero regras, limite, porque aprendi que, sem isso, a vida será sempre uma sucessão de surpresas...”

 

Ali, bem no limite, naquele ponto tênue que separa a loucura da razão, repousam os personagens deste filme tão poético, que é trágico e cômico como a vida.

 

* * * * * * * *

 

A mãe lê para o menino Augusten, um de seus poemas:

 

“A infância acabou. O que resta?

A infância acabou. E a juventude.

E os laços com as pessoas que amei estão agora partidos.

 

Minha dor é maior do que eu consigo suportar.

Minha dor dá nova forma à cidade e ressuscita todos os mortos que andaram comigo neste dia.

O que restou?

O meu futuro parece abominável, exaurido do mistério que sinto nos ossos.

O que mais sentirei falta é da extravagância de todo o meu futuro estendido a minha frente

como uma estrada no deserto.

 

Ondas de calor se erguendo enrugando o ar.

Eu choro pelo que acabou.

Eu choro por mim.”

 

* * * * * * * *

 

'Correndo Com Tesouras' estréia hoje à noite na HBO. Quem assina o canal e se interessa por este estilo de filme, é bom dar uma olhada na programação. Eu vou tentar rever.



Escrito por Guto às 16h58
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Poema para seu Domingo

O poeta português Mário de Sá-Carneiro é o meu escolhido para este domingo. Ele nasceu em Lisboa no dia 19 de maio de 1890 e lá viveu até os 22 anos de idade. Sá Carneiro teve uma infância difícil, uma adolescência e juventude complicadas e marcadas pela dor, pela solidão e pelos distúrbios emocionais. 

Em 1912 mudou-se para Paris, a fim de fazer faculdade de Direito, mas sua estada na cidade não resultou em sucesso. No ano seguinte, por motivos pessoais e financeiros, ele acabou retornando a Lisboa.  Estava bastante sozinho e foi ajudado pelo amigo Fernando Pessoa, o poeta dos heterônimos. Foi Pessoa quem o apresentou aos modernistas e lhe apoiou sempre como amigo e conselheiro. Em 1914 lançou seu primeiro livro de poemas e um romance. Pertencente à geração Orpheu e Influenciado pelo decadentismo-simbolismo, Mário Sá-Carneiro é considerado um dos grandes poetas do modernismo português.

 

As amarguras da vida o atingiram desde cedo (como a perda de sua mãe, quando tinha apenas 02 anos de idade). Talvez sejam estes sofrimentos que tenham levado o Mario a enveredar precocemente pelo mundo literário. Aos 12 anos já escrevia seus primeiros versos e na adolescência traduziu escritores de renome, como Goethe e Schiller.

 

A obra poética de Mario reflete a sua vida pessoal, a sua angustia, sua solidão, seu estar no mundo não estando plenamente nele. Suas questões existenciais, políticas, seus conflitos internos e suas frustrações serviram de inspiração para seus versos de desencanto.

 

Em 1915, um ano após o retorno a Portugal, o poeta voltou a Paris, buscando superar uma forte crise depressiva. Neste período trocou cartas com Fernando Pessoa e, numa delas, revelou suas intenções de por fim a seu sofrimento.  Foi no dia 26 de abril de 1916, no auge do pessimismo e do desespero, que o autor dos versos “eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte do tédio / Que vai de mim para o outro” colocou o ponto final em sua vida, suicidando-se num quarto de hotel em Paris.

 

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

(---)

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

(----) 
 
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

(----) 

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...
 
(----) 

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

(Mário de Sá-Carneiro)



Escrito por Guto às 01h23
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Canta, canta uma esperança

A nossa vida não é fácil. Temos que aprender a conviver e lidar com as provações que a existência nos impõe. A gente então cria castelos de areia, faz da imaginação uma espécie de fuga da dura realidade. Uma fuga que é boa, que é construtiva e que nos mantêm de pé. Ouvir uma música, ler uma estória, assistir um filme... são alguns mecanismos que a gente costuma utilizar para que a vida se torne menos áspera, mais feliz. E quem há de condenar ou dizer que não devemos nos alienar de nossas fraquezas de vez em quando?

Penso que se vivêssemos apenas a nossa vida, sem dar asas à imaginação, não iríamos pra frente e ficaríamos paralisados ante a primeira dificuldade. Os sonhos, as fantasias, nos ajudam a encontrar caminhos diferentes e formas mais concretas de seguir em frente, buscando as melhores saídas, os melhores caminhos, as melhores respostas. Às vezes precisamos sair completamente de uma situação para entendê-la. Colocando-nos de fora é que seremos capazes de ver as coisas de uma forma mais clara, mais objetiva e assim buscar uma solução para elas.

O ideal, creio, seria balancear realidade e fantasia. Conseguir ver a vida com a razão, ser racional nos conflitos, entender nossos limites e nossas capacidades e saber o momento de desistir ou de seguir em frente. A vida é dura, mas temos esses momentos só nossos, onde colocamos um pezinho na fantasia. Isso é ideal: um pezinho na fantasia, mas o outro sempre bem plantado na realidade pois não é possível fugir sempre, escapar sempre. As dores existem e a gente tem que sofrer um pouco se quer ir em frente. Li em algum lugar que as perolas só existem lindas como são, porque uma determinada ostra um dia foi ferida por um grão de areia. É preciso sofrer um pouco para chegar a um objetivo maior. Ou como escreveu o Fernando Pessoa, um dia: “quem quer passar além do bojador, tem que passar além da dor”.

Refletindo sobre essas questões acordei hoje meditando sobre algumas atitudes que preciso tomar, mas que venho adiando sempre. Acho que chegou a hora...


Fantasia

E se de repente
A gente não sentisse
A dor que a gente finge
E sente
Se, de repente
A gente distraísse
O ferro do suplício
Ao som de uma canção
Então, eu te convidaria
Pra uma fantasia
Do meu violão

Canta, canta uma esperança
Canta, canta uma alegria
Canta mais


Revirando a noite
Revelando o dia
Noite e dia, noite e dia

Canta a canção do homem
Canta a canção da vida
Canta mais

Trabalhando a terra
Entornando o vinho
Canta, canta, canta, canta

Canta a canção do gozo
Canta a canção da graça
Canta mais

Preparando a tinta
Enfeitando a praça
Canta, canta, canta, canta

Canta a canção de glória
Canta a santa melodia
Canta mais

Revirando a noite
Revelando o dia
Noite e dia, noite e dia.

(Chico Buarque)


Escrito por Guto às 09h32
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A força do olhar

Olhar. Ver. Olhos bem abertos para ver tudo, para que nada escape, para não perder nada. Olhos bem fechados para ver por dentro, com os olhos da imaginação. Outros olhares: olhar e guardar. Olhar e desviar os olhos. Olhar com medo. Olhar com amor. Olhar com nojo. Olhar com desprezo. Olhar e não ver. Olhar e não olhar. Olhar o nada. Olhar o tudo. Olhar o vazio. Olhar a criança, o adulto, o velho, o moribundo, o morto. Olhar o tempo e seu irremediável passar...

Manuel Bandeira olhou: viu uma rosa sozinha no galho. Jesus, o cristo, olhou a adultera por ela mesma e não por si mesmo, como o faziam, já naquele tempo, os homens, mesmo os menos egoístas. A Virgem viu seu filho na via dolorosa e seu olhar foi perenizado, eternizado nos traços dos artistas, que quase sempre sabem olhar por quem não sabe. Caetano olhou o menino, depois viu o menino correndo, viu o tempo rondando ao redor dos caminhos daquele menino. Raul Seixas viu tudo, por mais de 10 000 anos. Miguilin viu as cores do mundo ao vê-lo com as lentes do doutor. Rui Maurity viu chover e viu relampear (mas mesmo assim o céu estava azul). Marques Rebelo viu a lua no Céu, Bernardinho viu Carlão, mas não beijou, ou beijou com os olhos.

 

Entre o ver e o olhar perpassa sutilmente o desejo: o olho que me olha no olho que eu olho. Vemos o que desejamos ver. Para o bem e para o mal.

 

Eu exercitei hoje o meu olhar. Olhei a fotografia antiga. O amor paralisado. O momento guardado. Eu olhei para o meu amor de ontem e ele foi, por um momento, o meu amor de agora. O tempo não para, mas na foto ele pode parar. Um certo olhar fixou aquele momento. O olhar da memória, o olhar cristalizado para o amor de sempre.

 

 

Ótica

 

olho é uma coisa de ver

olho é uma coisa divertida

 

olho é uma coisa danada

olho é uma coisa de dano

 

olho é uma coisa de dono

olho é uma coisa do dom

 

olho é uma coisa de deus

olho é uma coisa do demo

 

olho é uma coisa de dantes

olho é uma coisa de dentes

 

olho é uma coisa de dedos

olho é uma coisa de dentro.

 

(Affonso Ávila)

 

Desejo a todos uma semana vista com muitos bons olhos.



Escrito por Guto às 09h21
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