A Vida de Maria - Uma história real
Ela sai de casa pela manhã rumo à repartição pública onde, além de cumprir suas tarefas corriqueiras, cotidianas e repetitivas irá, também, exibir seus trabalhos manuais para as colegas: pontos de cruz, bordados, marcas e outros trabalhos em crochê.
No ônibus lotado segue sozinha junto a outras pessoas também caladas. Olha através da janela os transeuntes apressados e não faz nenhuma consideração a respeito. Automaticamente repete mais um dia, até que ele se termine, quando fecha suas gavetas, seu casaco e seu coração. Sorri para os colegas, confere o relógio na parede e vai embora, com um sorriso amarelo nos lábios.
Onibus de volta pra casa. 06 da tarde. Ponto cheio de gente. Um homem passa ao seu lado correndo para pegar seu ônibus que já está saindo e esbarra em seu braço fazendo com que ela perca o equilibrio e quase caia no chão. Não pede desculpas e pula dentro do coletivo. Ela tem uma vontade súbita de chorar, mas respira fundo e deixa o nó no peito e as lágrimas para mais tarde. Resolve então se dar um presente, para buscar uma alegria qualquer. Atravessa a avenida e entra na loja. Quer um telefone novo, bonito, que tire foto, que toque músicas, que faça tudo que ela tem direito, porque ela está merecendo alegrar e dar cor a sua vida. Com o mimo na mão ela sai da loja com um sorriso nos lábios. Sorriso não amarelo. É o primeiro sorriso verdadeiro de seu dia.
Taxi de volta pra casa. Ela merece. O motorista não é de muita conversa e ela se ressente. Gosta de pegar o taxi de vez em quando e ir conversando com o taxista. Em casa é que a coisa pega. Na cozinha ela prepara algo pra comer enquanto ouve as noticias na TV ligada na sala. Depois do lanche, dá uma ajeitada no apartamento, toma um banho demorado, assiste a novela e vai dormir. Fica olhando o telefone celular novo na cama, lê o manual, não entende direito. Deixa-o sobre a mesinha de cabeceira, dorme.
Acorda de madrugada com frio. Abre a janela e sente o vento cortante. Respira fundo, olha a lua no céu. Demora-se. Uma vaga idéia de suicidio é expulsa para longe. Apanha uma manta no guarda-roupa, volta a se deitar e pensa em dormir logo para mostrar o novo telefone para as colegas no dia seguinte...
Para que elas a ajudem a aprender a falar.
Modernidade
toques polifonicos,
internet, e-mail,
camara integrada,
mp3, mp4, mp5
bluetooth, video,
infravermelho e etc
terceira geração
e...
ninguém para dizer alô.
(Guto Oliveira)
Escrito por Guto às 11h59
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Me dê a mão, por favor, não me deixe cair
Recostado em minha cama eu não tenho vontade de nada e meus olhos observam as paredes brancas, viajam pelo teto, passeiam pelas tábuas enceradas do chão. Olho o violão abandonado no canto, ao lado da estante com discos livros e um pouco de uma vida, da minha vida. O radio está ligado. Tão retrô. Alguém ainda ouve rádio no século XXI? Fico assim a sonhar, a pensar em alguma coisa que poderia ter sido e que não foi. A semana passada não foi nada fácil. E esta semana corre de forma razoavelmente tranqüila... Mas agora, pelo menos, tenho noção do que vai acontecer, ou melhor, do que 'não' vai acontecer. Preciso apenas me preparar para partir para outra viagem, que esta já chegou ao seu destino.
Por falar em viagem, este é o último post essa semana. Tem feriado prolongado e amanhã vou viajar. Vou ver minha mãe e só voltarei na semana que vem.
Destino... O que me reserva o futuro, os dias que virão? As ações que não foram em frente, os medos que me paralisaram, o que não teve fim, que parou no meio do caminho enquanto eu olhava para o que os outros estavam realizando e me esquecia de mim? Quando a gente se preocupa demais com o que os outros estão fazendo, o que estão buscando, o que estão conquistando, a gente acaba deixando a própria vida em segundo plano...
No mais, ficam estas palavras, junto com o meu pedido de desculpas por este texto enigmático, e minha gratidão a quem perdeu um tempinho aqui a ler palavras confusas e dispersas.
Este feriado vem na hora certa... preciso mudar um pouco de ares, buscar o amor da família, o carinho dos irmãos, a festa com os amigos. É só do que preciso já que ‘la vida é um ratico, um ratico nada más’ como canta o Juanes com sua bela voz e com suas palavras que inundam o ambiente entediante do meu quarto. E eu me deixo levar.
La vida es un ratico
Que cambie todo pero no el amor,
es la mision mas grande que tenemos tu y yo
en esta vida, que aprender, entender y saber
Porque estos tiempos son dificiles
y es mas escaza a la verdad
Que cambie todo pero no el amor,
nuestra familia es más importante, ya lo sé
y la debemos proteger y volver a tejer
Porque estos tiempos son dificiles
y es más escaza a la verdad
Porque estos tiempos son dificiles
y estamos sentados tan lejos el uno del otro
Porque estos tiempos son dificiles
y estamos atados de manos y corazón
No dejemos que se nos acabe que
todavia hay muchas cosas por hacer
No dejemos que se nos acabe que
la vida es un ratico, un ratico nada más
No dejemos que se nos acabe que
vienen tiempos buenos y los malos ya se van,
se van, se van....
Quedate tu....!!!
Que cambie todo pero no el amor,
es todo lo que yo te pido, no te pido más
Dame la mano por favor no me dejes caer
Porque estos tiempos son dificiles
y es mas escaza a la verdad
Porque estos tiempos son dificiles
y estamos sentados tan lejos el uno del otro
Porque estos tiempos son dificiles
y estamos atados de manos y corazón
No dejemos que se nos acabe que todavia
hay muchas cosas por hacer
No dejemos que se nos acabe que
la vida es un ratico, un ratico nada más
No dejemos que se nos acabe que
vienen tiempos buenos
y los malos ya se van, se van, se van....
Quedate tu....!!!
(Juanes)
Escrito por Guto às 23h54
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Poema para seu Domingo
Neste domingo frio, nada melhor do que esta poetiza para aquecer os corações. Nascida Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, em Goiás Velho, Goiás, no dia 20 de agosto de 1889, ela atendia também pelo singelo nome de Aninha da Ponte da Lapa. Somente em 1910, quando teve um conto publicado numa revista literária, é que assumiu o nome com o qual ficou famosa, Cora Coralina.
Seu primeiro livro foi ‘Poemas dos Becos de Goiás e Historias Mais’ que conheci nos tempos de pré-vestibular. Foi publicado quando a poeta já passava dos 70 anos de idade. Ela escreveu desde a mais tenra idade, mas sua vida reprimida dificultou o surgimento publico da poetisa. Seus poemas falam das coisas da vida, historias de sua terra, que ela percebeu e registrou com seu coração de poeta. É uma poesia simples, sensível, nostálgica e humana, muito humana. É também uma poesia de otimismo, de fé. Em “Aninha e suas pedras” ela tem os versos: “Não te deixes destruir... / Ajuntando novas pedras / e construindo novos poemas. / Recria tua vida, sempre, sempre. / Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”
Cora teve uma vida bastante difícil. Seus estudos não ultrapassaram o curso primário. Fugiu de casa pra se casar e teve um casamento infeliz, dominada por um homem que a impediu de viver sua liberdade criativa (conta-se inclusive que, convidada a participar da Semana de Arte Moderna em 22, foi proibida pelo marido). Mas com ele teve 06 filhos e uma bela família. A fama chegou para Cora somente aos 90 anos, quando foi elogiada pelo Drummond e teve seus versos descobertos e admirados por todos pela pureza e simplicidade. Foi eleita a Intelectual do Ano de 1983. Sobre a velhice ela escreveu "...venho do século passado e trago comigo todas as idades do mundo." Tinha experiências e coisas a dizer, essa bela mulher eterna, que morreu em Goiania, no dia 10 de abril de 1985.
Durante grande parte de sua vida Cora Coralina fez doces para sobreviver. A partir de algum momento, deixou de ser doceira e passou a fazer doces poesias. Vejam esta, do livro ‘Vintém de Cobre’, onde ela, em tom confessional, nos revela ter vindo ao mundo antes de seu tempo. Linda demais!
Nasci antes do tempo
Tudo que criei e defendi nunca deu certo. Nem foi aceito. E eu perguntava a mim mesma Por quê?
Quando menina, ouvia dizer sem entender quando coisa boa ou ruim acontecia a alguem: Fulano nasceu antes do tempo. Guardei
Tudo que criei, imaginei e defendi nunca foi feito. E eu dizia como ouvia a moda de consolo: Nasci antes do tempo.
Alguém me retrucou. Você nasceria sempre antes do seu tempo. Não entendi e disse Amém.
(Cora Coralina)
Este post é dedicado à escritora Zélia Gattai, que se foi em busca de seu Amado Jorge. :´-(
Escrito por Guto às 10h16
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Padecendo no paraíso
Ela me diz, arregalando seus grandes olhos negros, cheios de lágrimas, cheios de mágoa: meus filhos não me entendem. Não me aceitam, têm vergonha de mim. Na festa, sábado, o mais novo, Ricardinho, ficou com ódio porque eu resolvi dançar um pouco com a galera. Disse que eu estava ‘pagando mico’. Que eu estava bêbada e ridícula. Olha pra você ver! (expressão tipicamente belorizontina, que me faz rir sempre, mesmo que por dentro).
E ela continuou: Renan, o mais velho, foi embora da festa sem nem me dar satisfação. Ele se acha o independente, o dono da verdade, se mete na minha vida, não me ouve e faz tudo ao contrário do que eu digo. Tudo que eu sonhei para ele, tudo que batalhei, já que o pai nunca deu atenção, aquele imprestável, tudo que eu fiz por ele e ele não reconhece. Só queria que ele se desse bem na vida, que fosse alguém afinal eu sou mãe e sofro vendo meus sonhos e minha luta indo por água abaixo. Agora ele vive ameaçando abandonar o curso de Odonto, porque precisa de mais tempo para se dedicar ao grupo de teatro. Quer me matar do coração, só pode! Eu mereço isso?
Merece! Penso com meus botões, mas não o digo por que sei que não adiantaria nada. Mãe é mãe. Prefiro, então, recitar-lhe palavras de Gibran:
‘Teus filhos não são teus filhos.
Eles são os filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de ti, mas não de ti,
E embora estejam contigo, não te pertencem.
Podes dar-lhes o teu amor, mas não os teus pensamentos,
Pois eles têm seus próprios pensamentos,
Podes abrigar-lhes o corpo, mas não a alma,
Pois sua alma mora na casa do amanhã,
que não podes visitar, nem mesmo em sonhos.
Podes esforçar-te para ser como eles, mas procura não fazê-los
ser como tu,
Pois a vida não anda para trás nem se demora no dia de ontem.’
(Kahlil Gibran)
Escrito por Guto às 23h39
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O Show da Vida
Eram quase 11 horas. Cheguei mais cedo ao consultório da Priscilla, minha dentista e, enquanto aguardava minha vez, sentei-me num sofá e, enquanto observava disfarçadamente as pessoas que também esperavam, apanhei, na mesinha de centro, uma revista Caras e fiquei lendo, ou melhor, vendo as fotos das celebridades. Eram três pessoas na espera: um homem calvo e gordo, que tinha os olhos fixos no nada. Não lia e nem me olhou quando entrei na sala e desejei bom dia... A outra cliente era uma senhora elegantíssima, com uns óculos lindos e cabelo bem penteado. Muito bonita, ela tinha nas mãos uma revista e levantou os olhos para mim respondendo ao meu cumprimento e sorrindo com simpatia. A terceira pessoa era uma mulher mais jovem e também era bonita. Também disse bom dia e também parecia simpática.
Depois desse reconhecimento de área, voltei minha atenção para as novidades da Ilha de Caras e, mesmo percebendo que a revista era passada, continuei vendo as imagens. Minha dentista deu uma passadinha (ela me adora) e disse que me chamaria em seguida. Eu fiquei agradecido. Havia uma TV que até então estava desligada e a secretária resolveu ligá-la, para alegria do homem calvo, que passou a olhar fixo na tela. Eu preferi continuar com a Caras. A elegante senhora é chamada e segue para o atendimento. Uma mãe havia chegado um pouco antes, trazendo dois filhos. Um garoto que falava alto e um menininho menor que corria pela sala e mexia nas coisas da recepção.
A certa altura o telefone celular da moça bonita toca uma canção. Ela atende. Eu (nem ninguém que estivesse ali e no ambiente ao lado) não poderia deixar de ouvi-la, tal a naturalidade com que ela pareceu adquirir ao falar com a pessoa que a chamara, quase como se estivesse falando em sua própria casa, ou melhor, em seu próprio quarto, de porta fechada. Fico impressionado como as pessoas perdem um pouco a noção ao falar no celular. A mulher desfiou um rosário no telefone e disse coisas de sua vida que eram absolutamente intimas. Ela ‘sabia’ que seu marido tinha outra. Agora tinha tido certeza. Mas estava fingindo que não tinha percebido que ele andava diferente e, abaixando um pouco a voz, acrescentou que ele ‘não a procurava mais’. Justificou sua atitude para a pessoa com quem falava, dizendo que ‘pensava nos filhos’, que não podia cuidar deles sozinha, que o homem era ‘um pai muito presente’, que gostava muito dos meninos e que ele não iria querer se separar, ela tinha certeza disso. Ela ‘tinha vindo nesse mundo pra sofrer’.
Sentado na cadeira da dentista, enquanto Priscilla fazia sua avaliação, eu, de olhos fechados, pensei nas câmeras que me filmaram enquanto eu subia as escadas, na vida exposta dos artistas na revista que folheara a pouco, na história daquela mulher que contava a suas intimidades em meio a estranhos. Entre público e o privado havia uma linha que não existe mais. Todo mundo sabe tudo da vida de todos, mas esta é uma falsa intimidade, que afasta, que nos torna cada dia mais sozinhos e mais angustiados.
O mundo moderno é escancarado e triste. Como o meu sorriso, ao despedir-me de Priscila.
Paisagem
Ser tão
só
nas ruas
Sertão
só
nas ruas
(Eunice Arruda)
Escrito por Guto às 15h07
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O amor de ontem de hoje de sempre
Ouço no radio a cantora de voz rouca e triste* e ela me diz que “o amor deixa marcas que não dá pra apagar”. E meu coração fica apertado. Afinal o que é o amor? Quando amamos tudo fica tão perfeito. De repente tudo pode mudar. O que antes era cor e alegria se transforma em tristeza e melancolia. O amor fragiliza. A gente se submete. E a nossa personalidade também costuma se modificar. De repente, sem que se perceba, estamos fazendo coisas antes inimagináveis para agradar o objeto de nosso desejo. Algo que antes era absolutamente indiferente para nós, adquire junto com a pessoa amada uma importância vital. Pequenos gestos, atitudes mínimas fazem-nos perder o prumo.
Werther** vivia seu idílio amoroso e tudo era cálido, puro, belo, era a delicia e o gozo... mas a figura de Alberto vem manchar a cena, vem turvar o ambiente amoroso e nosso apaixonado jovem vê seu mundo cair, qual cartas de um baralho formando um castelo frágil que é levado pelo vento. Sim, Carlota casa-se com o bom Alberto e o jovem Werther perde o prumo, o tino. O amor incomensurável, o amor de um outro tempo, o amor de hoje, o amor de sempre, o amor que faz perder a razão.. Werther morreu por seu amor, morreu de amor. Num gesto extremo ele se entregou ao seu delírio de que em outra vida seria feliz. Será que ainda se morre por amor? O amor hoje é filme, é coisa de cinema, tem cheiro de pipoca, de menta, o amor é comédia romântica, como diz a canção que ouço agora*** o amor é como a vida, tem que correr atrás dele. Tem que disputar, que fazer esforço. Amor é vida, mas as vezes é solitário viver, assim como pode ser solitário o amor, o amor sozinho, amar não compartilhado. Ai ai, quero chorar, não tenho lágrimas...
*Elza Soares – Espumas ao vento
** Johann Wolfgang Goethe - Os sofrimentos do Jovem WERTHER
*** Zeu Brito – O amor é filme.
27 de outubro, à noite
Tenho tanta coisa e a presença dela tudo devora!
Eu tenho tanta coisa e sem ela tudo se reduz a nada.
(Goethe, em Werther)
Para M...
Escrito por Guto às 09h26
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Poema para seu Domingo
O poeta deste domingo é Murillo Araújo e trago-o hoje porque reli um dos seus poemas e tive uma vontade louca de publicá-lo, tamanho é o carinho que tenho pelo poema que conheço desde criança, declamado nos clubes de leitura da escola. Então pensei: já que é domingo, vamos homenagear o Murillo e aproveitar para divulgar a poesia para que a leiam todos os que pintarem por aqui.
Bom, o Murillo Araújo é mineiro, da cidade do Serro, onde nasceu no dia 26 de outubro de 1894. Ainda na primeira infância mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou e escolheu viver. Fez faculdade de Direito, mas a tendência para as letras o levou para o jornalismo, profissão que exerceu por toda a vida paralelamente à prosa e principalmente à poesia. Publicou “Carrilhões”, seu primeiro livro de poesias, aos 23 anos de idade. Este livro já prenunciava o que viria a ser o movimento modernista, que aconteceria cinco anos mais tarde e ao qual o poeta teve uma participação ativa e importante. Na prosa, ele foi o tradutor brasileiro do famoso romance russo de Gogol, “O Inspetor Geral”, escreveu a biografia de Catulo da Paixão Cearense, escreveu sobre poesia e sobre o movimento modernista. Suas outras obras são dedicadas à poesia.
Altamente influenciada pelo simbolismo, a poesia de Murillo Araújo é caracterizada pelo formalismo e pelo subjetivismo, nela o poeta deixa a inspiração fluir e trazer, para alem da razão, o sentimento. Alguns de seus versos foram musicados por Villa-Lobos, Eleazar de Carvalho e outros, com relativo sucesso.
O poema deste domingo foi extraído do livro “A Estrela Azul”, livro dedicado às crianças de todas as idades e que é comovente, pois mostra o lado humano e menino do poeta, refletindo a sensibilidade, a bondade e até a espiritualidade do escritor. Convido você, portanto, a se emocionar comigo, ao ler os versos cândidos deste poeta mineiro, que morreu no Rio de Janeiro no dia 01 de agosto de 1980.
Manhã de Chuva
Chove; chove e choveu a noite inteira.
A vidraça está cheia de pinguinhos;
A água chora cantando na goteira...
Que dó dos passarinhos!
Quanto vento! Que frio! Chove tanto...
As roseiras estão que é só espinhos.
As florinhas deviam ter um manto:
Que pena dos raminhos!
E agora, quando a chuvarada arrasa,
Passam meninos pobres nos caminhos.
E agasalha tão bem a nossa casa...
Façam entrar depressa os pobrezinhos!
(Murillo Araújo)
Escrito por Guto às 02h20
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Hoje a cidade está parada…
A rua sem carros a buzinar insistentemente. O silencio. A sirene da escola perto de casa, que não soou nesta manhã, me permitiram dormir até mais tarde. Abro a janela e observo o céu nublado prenunciando uma chuva para mais tarde. A preguiça, a falta de perspectiva para este dia primeiro de maio, deixam triste o meu coração brasileiro. Acho que vou voltar a dormir, penso, para em seguida desistir e vir para a frente do computador escrever essas palavras.
O dia do trabalhador é sempre festejado e, tanto no Brasil como em vários outros paises deste mundo é comemorado. É um dia para celebrar. Eu, ao contrário, sempre penso neste dia como sendo um dia para se pensar, para meditar sobre o que temos feito, sobre o que temos realizado, qual a nossa contribuição para um mudo melhor. E principalmente, qual o nosso sentimento em relação ao que fazemos, qual a nossa cota de prazer em nossa atividade profissional e se está valendo a pena. É um dia para a reflexão, eu acho. Um dia para pensar nas diferenças sociais, nas desigualdades, na falta de oportunidades. Leio no Clinica da Palavra que Giselle Bundchen é a numero 1 por sua atuação no mundo fashion. O que ela ganha por seus passeios na passarela e pelas aparições em fotos de publicidade chega a ser indecente (embora ela seja linda e eu a adore, claro). Penso no engraxate que trabalha a anos na Av. Afonso Pena, hipercentro de BH e que fala com orgulho de seu trabalho e do respeito e amizade que lhe dedicam os executivos da região. Sem palavras...
Fico triste. Fico instrospectivo no primeiro de maio.
Coração Brasileiro
No meu coração brasiliero
plantei um terreiro, colhi um caminho
armei a arapuca, fui pra tocaia, fui guerrear
Meu coração brasileiro anda de lado
manca inclinado de norte a sul
a vida é o rumo que é mais procurado
Quando é de noite a vida silencia
abro no peito três olhos pro céu
nasço na luz de que nasce o dia
Eu sigo manco meu pé tem gabarro
minha crista tem gogo fiz a minha fé
com tijolo de barro
Mas não regulo minha veia com isso
quando é de noite na vida eu me esguicho
no vão do espaço de procurar
O coração que for brasileiro
faço capina, chumbo a cravina,
quero alegria quero alegrar
a vida ferve na cuia do tempo
quem espera a dor não viaja no vento
arranquei a hora do chão no momento
Nasci de manhã o sol veio olhar
brilhou meu setembro fiquei no lugar
mais cedo que a vida eu fui trabalhar...
(Milton Nascimento)
Escrito por Guto às 12h53
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